O globo, n.31422, 18/08/2019. Artigos, p. 02
Bolsonaro cria risco amazônico para o agronegócio
18/08/2019
O governo Jair Bolsonaro tem sido pródigo em disfarçar a própria escassez de ideias com o abuso da retórica. O caso da Amazônia é exemplar. Critica a Igreja Católica, que há três anos prepara um Sínodo no Vaticano, em outubro, para uma reflexão além do âmbito eclesial sobre essa área de 7 milhões de km² , dos quais 64% estão no Brasil. Desdenha de países que, nos últimos dez anos, repassaram US$ 1 bilhão dos seus cidadãos — a fundo perdido — para projetos sustentáveis, cujos únicos beneficiários são comunidades nas quais a presença do Estado brasileiro é rarefeita. Critica em linguajar tosco chefes de Estado da Alemanha, França e
Noruega, entre outros, por seus apelos à preservação ambiental, insinuando uma suposta conspiração contra a soberania brasileira. Nesse aspecto, aliás, Bolsonaro mimetiza líderes da esquerda mais retrógrada, habituados a recorrer ao espectro do “inimigo externo” para justificar o próprio naufrágio por incompetência — como na Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Essa retórica encrespada do presidente sobre a suposta cobiça estrangeira apenas ecoa uma etapa da ditadura militar, quando ocorreu no Brasil, em plena Guerra Fria, uma aproximação entre extremistas fardados do nacionalismo e seus símiles na esquerda anticapitalista e defensora da luta armada. O alarido governamental mais revela do que oculta: Bolsonaro, na realidade, não tem um plano para a Amazônia, que é metade do território nacional, nem sequer um programa de desenvolvimento regional sustentável. São inúmeras as evidências científicas da evolução do desmatamento e da degradação do bioma amazônico. Em junho, por exemplo, o desmate avançou 56% em áreas privadas ou tituladas como posse, informa o Imazon Sem projeto alternativo, consistente, o governo se limita a renegar a Ciência, a desdenhar de debates e a estimular o desinvestimento externo. É política pouco inteligente. A incontinência retórica de Bolsonaro está criando um risco amazônico para o agronegócio, hoje responsável por 26% do Produto Interno Bruto.