Correio braziliense, n. 20524, 31/07/2019. Política, p. 4

 

Trump dá aval a Eduardo

Cláudia Dianni

31/07/2019

 

 

Diplomacia » Presidente dos EUA elogia indicação do filho do presidente Jair Bolsonaro para embaixada em Washington e diz querer tratado comercial

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiou ontem a indicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para o posto de embaixador do Brasil em Washington, e afirmou que não considera a decisão do pai, o presidente Jair Bolsonaro, um ato de nepotismo. “Eu conheço o filho dele (Jair Bolsonaro), que considero extraordinário, um jovem brilhante, incrível. Estou muito feliz pela indicação”, disse Trump. “Provavelmente, é por isso que o fizeram (indicaram)” completou o presidente norte-americano, ontem, na Casa Branca. Ao ser questionado sobre nepotismo, negou. “Não, eu não acho que é nepotismo, porque o filho ajudou muito na campanha. O filho dele é extraordinário, ele realmente é.”

O nome de Eduardo Bolsonaro já foi encaminhado às autoridades dos EUA por meio do pedido de agrément, um documento oficial de consulta entre os dois países que precede a sabatina pela qual o indicado deve passar no Senado. Antes, porém, o governo americano deve responder oficialmente à consulta. Quando for aceita, a indicação será publicada no Diário Oficial da União e o Senado enviará a indicação para a Comissão de Relações Exteriores, onde Eduardo será sabatinado. Ao final da sessão, o colegiado delibera em votação secreta. Se aprovado, o nome segue para votação no plenário do Senado, também sob sigilo.

Os critérios são definidos pela Lei nº 11.440, de 2006. Para ocupar o cargo de embaixador, é preciso ser ministro de primeira ou de segunda classe (cargos da estrutura do Itamaraty). No entanto, a lei autoriza que sejam escolhidos, para os postos de chefe de missão diplomática no exterior, “brasileiros natos, maiores de 35 anos, de reconhecido mérito e com relevantes serviços prestados ao país” e, em casos excepcionais, mesmo que não integrem a carreira diplomática. Eduardo completou 35 anos em 10 julho, um dia antes de o presidente afirmar que havia decidido indicá-lo para o posto.

Cavalheiro

Trump já havia elogiado Eduardo, quando o deputado acompanhou o presidente Jair Bolsonaro no encontro que os dois chefes de Estado tiveram na Casa Branca, durante a visita do brasileiro aos EUA, em março. Eduardo substituiu o chanceler Ernesto Araújo na Sala Oval da Casa Branca, na conversa bilateral entre os dois presidentes. Mais tarde, na cerimônia de declaração conjunta à imprensa, Trump pediu que Eduardo se levantasse e fez elogios a ele.

Também ontem, mais cedo, a jornalistas, Trump elogiou o presidente Jair Bolsonaro nos jardins da Casa Branca, e disse que quer seguir em frente com um acordo de livre-comércio com o Brasil. “Eu tenho um ótimo relacionamento com o Brasil. E um relacionamento fantástico com o seu presidente. Ele é um grande cavalheiro. Dizem que ele é o Trump do Brasil. Eu gosto disso, é um elogio. Eu acho que ele está fazendo um ótimo trabalho. É um trabalho duro, mas acho que ele está fazendo um trabalho fantástico. É um homem maravilhoso, com uma família maravilhosa”, disse o presidente dos EUA, que reclamou das tarifas de comércio que o Brasil “ainda adota para os produtos americanos”.

Resta saber se Trump aguarda o fim da visita do secretário de comércio, Wilbur Ross, em agenda no Brasil desde segunda-feira, para responder oficialmente ao agrément, de forma que o processo possa seguir. Hoje, Ross se encontra com o presidente Jair Bolsonaro e com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e amanhã, com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas. Na pauta, estão o futuro acordo, medidas de facilitação de comércio e investimentos no setor de infraestrutura.

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Entre dois acordos

31/07/2019

 

 

 

 

Em visita ao Brasil desde segunda-feira, o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, manifestou preocupação com o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, fechado no fim do mês passado, em Bruxelas, depois de 20 anos de negociação. “É importante que não haja nada neste acordo que seja contraditório a um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos”, disse o secretário a jornalistas após evento da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, em São Paulo.

Segundo Ross, os Estados Unidos têm divergências com a comunidade europeia em setores como farmacêutico, químico, de alimentos, de automóveis e em questões fitossanitárias. Ele afirmou que o estreitamento da relação entre as administrações Trump e Bolsonaro começou durante a visita do brasileiro aos Estados Unidos, em março, “desde quando ambos vêm trabalhando para melhorar as relações comerciais”.

Ross sinalizou que o acordo entre Brasil e Estados Unidos é um projeto de longo prazo. Segundo ele, para desenvolver a economia, o Brasil deveria considerar fazer uma reforma regulatória, tributária e da Previdência, que “melhoram o ambiente de negócios do país e ajudam a se livrar da corrupção”. Ele citou também a conclusão de um acordo de investimentos entre a Boeing e a Embraer entre as ações a serem feitos antes da assinatura de um tratado de livre-comércio.

Para o consultor de comércio internacional. Wagner Parente, da BMJ, um acordo desse tipo é um projeto de longo prazo, que envolve a negociação de tarifas em conjunto com o Mercosul, a exemplo da negociação com a União Europeia. Ele acredita, porém, que pode haver avanços em medidas de facilitação de comércio e em torno de cotas para o trigo americano no mercado brasileiro e para os embarques de açúcar para os Estados Unidos. No ano passado, a corrente de comércio entre os dois países foi de US$ 103,9 bilhões, sendo US$ 66,4 bilhões de vendas americanas, e US$ 37,5 bilhões em embarques de produtos brasileiros (C.D)