O globo, n.31419, 15/08/2019. Mundo, p. 26

 

Pacote eleitoral 

15/08/2019

 

 

Em resposta à vitória da oposição nas eleições primárias do último domingo e a sub se quente reação dos mercados, com quedada Bolsa de Valores de Buenos Aires e a desvalorização ainda maior do peso, o presidente argentino Maurício Macri anunciou ontem medidas para tentar aliviar o bolso dos eleitores que o castigaram nas urnas. Entre elas estão o aumento do salário mínimo, bônus salariais para funcionários públicos, a redução da carga tributária da classe média e o congelamento por 90 dias do preço da gasolina e dos combustíveis em geral. Ele também procurou a oposição para, ,“garantira governabilidade ”.

No pronunciamento, Macri prometeu “trazer alívio para 17 milhões de pessoas” e pediu desculpas pelas declarações de segunda-feira, quando culpou a oposição pela má reação dos mercados às primárias, uma prévia da eleição presidencial de 27 de outubro. Na ocasião, o presidente foi muito criticado por passar a impressão de que não respeitava a manifestação dos argentinos nas urnas. Agora, disse ter feito uma “autocrítica”.

— Quero pedir desculpas pelo que disse. Ainda estava muito afetado pelo resultado das eleições, estava sem dormir e triste — justificou-se.

— Quero que saibam que os entendi e que respeito profundamente os argentinos que votaram em outras alternativas ou votaram em nós em 2015 e agora escolheram não nos acompanhar.

Horas depois do pronunciamento, Macri conversou por telefone com o candidato vencedor das primárias, Alberto Fernández, cabeça da chapa em que a candidata a vice é a senadora e ex-presidente Cristina Kirchner. Fernández havia criticado o pacote.

—Existe o risco de que fique mossem reservas, eque o Fundo( Monetário Internacional)nos vi reas costas. Tardiamente e desesperadamente, ele toma essas medidas sem medir as consequências fiscais e de mercado—disse .— É como o Pai Nosso que os ateus rezam antes de morrer.

Após a conversa com Macri, porém, o opositor baixou o tome prometeu colaborar para evitar uma transição turbulenta. Segundo Fernández, a conversa foi uma “boa forma de tentar levar tranquilidade ao país e aos mercados”.

—Temos que chegara 10 de dezembro, essa é a data da transmissão do cargo. É preciso ajudar o presidente a levar adiante essa transição — disse, referindo-se à hipótese de sair vitorioso já no primeiro turno.

—É preciso preservar a institucionalidade e levar tranquilidade.

Fernández disse ainda que sua proposta econômica “não contempla nem um calote nem um risco de não pagamento da dívida nem o não reconhecimento das obrigações do Estado”.

Entre as medidas anunciadas por Macri estão um bônus de 5 mil pesos (R$ 345) para funcionários públicos; redução do imposto de renda pago pelos aposentados; aumento das bolsas para estudantes do ensino técnico e superior; abatimento de impostos para famílias com dois filhos que ganhem até 80 mil pesos (R$ 5.400) por mês; aumento da faixa de isenção do imposto de renda; redução de 50% dos impostos dos trabalhadores autônomos; e dois bônus extras mensais de 1 mil pesos (R$ 68) por filho para famílias de trabalhadores informais e desempregados, a serem pagos em setembro e outubro.

Além disso, Macri prometeu mais medidas de incentivo às pequenas e médias empresas, incluindo a renegociação em dez anos das dívidas tributárias. Segundo ele, as medidas terão um custo total de 40 bilhões de pesos, ou R$ 2,7 bilhões.

— Estou tomando estas medidas porque os escutei —disse Macri.

SEM CALMA NO CÂMBIO

Os anúncios não conseguiram acalmar o mercado de câmbio. O peso argentino continuou sua desvalorização e fechou cotado a 60,2 por dólar, acumulando queda de mais de 23% desde segunda-feira. O risco país, que mede o risco de não pagamento da dívida, subiu 194 unidades, para 1.935 pontos.

Nas primárias, Macri teve 32%, contra 47% de Fernández. Sua derrota em outubro passou a ser dada como certa por analistas políticos. Para vencer no primeiro turno, um candidato precisa ter 45% dos votos, ou 40% e uma diferença de ao menos dez pontos sobre o segundo colocado.

A derrota de Macri foi interpretada como um voto de castigo de eleitores de classe média e classe média baixa, que em 2015 o preferiram ao peronismo representado agora por Fernández e Cristina. Ma cri foi eleito coma promessa de liberalizara economia, acabando comas intervenções promovidas por Cristina. Ele liberou o câmbio e retirou os subsídios que mantinham baixos os preços de serviços como gás e eletricidade. Mas, ao contrário do que esperava, a inflação continuou a subi reos investimentos estrangeiros não vieram em volume suficiente.

Há cerca de um ano, Macri fechou um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) de US$ 57 bilhões, e ainda assim não conseguiu acalmara economia. Hoje, o presidente argentino dirige uma economia com inflação de 40% ao ano e em recessão, com aquedado PIB neste ano estimada em 1,5% a 2%.