Título: Dossiê aponta contradições
Autor: Almeida, Amanda ; Luiz, Edson
Fonte: Correio Braziliense, 04/11/2012, Política, p. 3
Família de Anísio Teixeira entrega na próxima terça-feira às comissões da verdade da UnB e do governo federal um levantamento com as incertezas sobre a morte do educador» Amanda Almeida
A dúvida sobre uma morte acidental ou um crime político segue com a família de Anísio Teixeira há 41 anos. É com a expectativa de chegar a uma resposta e a dor de repassar o episódio que os filhos do renomado educador entregam na próxima terça-feira às comissões da verdade do governo federal e da Universidade de Brasília um dossiê que cerca de incertezas a versão oficial sobre a perda do baiano, parceiro de Darcy Ribeiro na fundação da UnB. O momento marca também a assinatura de um termo de cooperação entre as duas comissões para apurar violações aos direitos humanos.
A parceria dará ao grupo da universidade prerrogativas de investigação, como acesso a documentos sigilosos. De acordo com a assessoria especial da Comissão da Verdade, levantamentos da UnB sobre perseguições a seus professores e alunos vão subsidiar o relatório final do grupo. A audiência conjunta é a primeira da Comissão Nacional da Verdade que trata de um caso específico.
Anísio Teixeira foi encontrado morto, em 1971, num fosso de elevador no Rio de Janeiro, no prédio de Aurélio Buarque de Holanda. O educador iria se encontrar com o ensaísta para se apresentar como candidato a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Na época, a posição em que o corpo estava e seu estado chegaram a ser classificados como "estranhos" pela própria polícia.
Mas a investigação não foi adiante e a morte acabou sendo registrada oficialmente como um acidente. No lançamento da Comissão da Verdade da UnB, que carrega o nome de Anísio, o professor João Augusto Rocha, professor da Universidade da Bahia e biógrafo do educador, levantou novamente a suspeita, indicando vários indícios de que se tratou, na verdade, de crime político.
A família de Teixeira, visto pelos militares como comunista, reuniu uma série de testemunhos sobre o caso. Há, por exemplo, relatos de médicos e amigos do educador que presenciaram a autópsia e apontaram que a violência e quantidade de ossos quebrados eram incompatíveis com a queda.
Nos arquivos O nome de Anísio Teixeira aparece em dossiês do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI). Sempre fazem ligação entre ele e outros personagens, como o ex-senador Darcy Ribeiro. Em um perfil de Antônio Ferreira de Oliveira Brito, então ministro da Educação de João Goulart, o ex-reitor da UnB é citado como dono de "pensamentos ideológicos por demais conhecidos".
A audiência de terça-feira marca também o primeiro acordo da Comissão da Verdade com universidades. O ex-ministro José Carlos Dias, um dos integrantes do grupo, destaca o papel da UnB na ditadura. "A UnB tem uma história de resistência e trará importantes informações. Outro aspecto positivo é a multiplicação de comissões da verdade, o que pode juntar mais elementos para revelarmos o passado", avalia. O encontro entre as duas comissões é aberto ao público e começa às 10h, na terça-feira, na UnB.
"A UnB tem uma história de resistência e trará importantes informações. Outro aspecto positivo é a multiplicação de comissões da verdade, o que pode juntar mais elementos para revelarmos o passado"