O globo, n.31464, 29/09/2019. País, p. 10

 

Em dez horas e 47 minutos de discursos, o presidente Bolsonaro 

Janaina Figueiredo 

Maiá Menezes 

29/09/2019

 

 

O discurso do presidente Jair Bolsonaro na cerimônia de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), na última terça feira, foi um dos mais longos dos 147 que havia feito até aquele dia e, também, o de maior repercussão nacional e mundial. Mas engana-se quem pensa que o repertório usado para uma plateia de líderes estrangeiros difere do que aparece em cada um dos discursos do chefe de Estado em eventos e atividades no Brasil e outras viagens internacionais. Analisados em detalhe pelo GLOBO, com a ajuda de acadêmicos, chega se à conclusão de que a fala oficial de Bolsonaro gira ao redor das mesmas palavras e ideias, muitas usadas durante a campanha e voltadas para sua base eleitoral, mas, também, a um mundo conservador que vem crescendo. Nas palavras do filósofo Eduardo Jardim, “é preciso estudar esses discursos e, especialmente o da ONU, com olhos abertos e sem preconceitos”.

—É algo reativo contra o global, a diversidade, e favorável a valores como família e religião. E tem público para isso, dentro e fora do Brasil —ponderou o filósofo.

No total, os 147 discursos, desde 1º de janeiro, totalizam dez horas e 47 minutos. Uma média de 4,27 minutos por dia. O GLOBO utilizou as transcrições disponíveis no site da Presidência da República. Na análise quantitativa, alguns elementos chamam a atenção e mostram para onde vai o pensamento do presidente: a palavra brasileiro foi mencionada 149 vezes, militar, 141 e Exército, 137. As mais presentes nos discursos não surpreendem: Brasil (1.079) e Deus (360).

Elementos desconhecidos para muitos brasileiros, mas que tornaram-se muito presentes em discursos desde a época da campanha eleitoral se destacam: os minerais nióbio (31) e grafeno (40), considerados pelo chefe de Estado como potenciais de enorme riqueza para o país. Os materiais, juntos, são mais citados pelo presidente do que a palavra Amazônia (56). Bolsonaro fala mais em esquerda (33) do que em direita (10); menciona mais Israel (126) do que o Nordeste (32); se refere mais a patriotismo (30) do que a saúde (19), e mais a família (98) do que a violência (20). E também cita mais a palavra passado (105) do que futuro (82).

—O discurso presidencial tem um padrão e eixos-chave. Um desses eixos me chama muito a atenção, o da esquerda, que ele usa como sinônimo de socialismo e comunismo. O Brasil nunca foi socialista ou comunista, essa possibilidade foi derrotada na insurreição de 1935. É como se brigássemos contra um fantasma imaginário —disse a historiadora Heloisa Murgel Starling, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), considerada uma espécie de biógrafa do Brasil.

Ela é, junto a Lilia Moritz Schwarcz, autora de “Brasil, uma biografia”. Ao responder sobre semelhanças entre os discursos de Bolsonaro e outros presidentes brasileiros, a pesquisadora foi taxativa:

—O que estamos vendo é algo inédito. Heloisa não vê semelhanças com nenhum outro presidente brasileiro, nem mesmo de governos militares. A insistente menção da esquerda, associada a socialismo e comunismo, afirmou Heloisa, busca “mobilizar o imaginário anticomunista que foi forte a partir de 1935”. Esse imaginário, diz ela, “continua existindo no Brasil”.

—Devemos refletir sobre erros cometidos no período da redemocratização. Apostamos na democracia das instituições, mas não na construção de uma cultura política democrática — disse a historiadora.

PERSONALIDADE

Na avaliação do professor Daniel Damasio, da Unesp, doutor em Direito pela Universidade de Sorbonne, o grande número de citações a Israel (126) leva em consideração muito da personalidade do presidente, que se aproxima dos que pensam igual a ele, daqueles com quem tem identidade ideológica. Ele se preocupa com a posição de Bolsonaro em relação à Argentina, citada 75 vezes nesses oito meses, caso vença Alberto Fernández, candidato de Cristina Kirchner. O país, lembra, tem importância comercial para o Brasil. Para ele, falar de Cuba e Venezuela não fizeram sentido algum no discurso da ONU:

—É um discurso dos anos 1960 e 1970. Anacrônico. A questão é que ali na ONU ele fala em nome do Estado brasileiro. Encarna o Estado. Deveria, nesse caso, ter tido um discurso mais abrangente, de estadista, sobre os interesses do Brasil diante da comunidade internacional. Tem repercussão imediata. Questões que eram da esfera interna se internacionalizaram. É um cartão de visitas.

Para Renato Lessa, professor associado da PUCRio e pesquisador associado à Universidade Lettres Sorbonne, “o discurso (do presidente) na ONU, e em geral, é incomparável com o de outros presidentes”:

—O Brasil sempre ocupou esse papel de abertura da Assembleia Geral da ONU e sempre houve cuidado, desde o governo Figueiredo, de apresentar o Brasil como país mediador, tolerante, aberto, sem contencioso. Ele rompeu a tradição de uma diplomacia suave e desgastou um grande ativo internacional, que é a simpatia que o mundo tem pelo Brasil. Ora lidos, ora no improviso, os discursos de Bolsonaro também refletem a memória de uma quase tragédia: a facada que levou em Juiz de Fora (MG) durante a campanha. Em grande parte das referências que faz a Deus, cita o atentado e agradece por ter conseguido chegar à Presidência.

TERMOS PREFERIDOS

1.079 vezes

EXEMPLO:

“Nós acreditamos no Brasil. O Brasil vai dar certo. E com essas cabeças que temos aqui à frente, desculpe a brincadeira do colega japonês ali, é descendente de japonês mesmo, ou não? Eu morei no Vale do Ribeira por muitos anos. Na cidade de Registro tem uma grande colônia japonesa. Eu nunca vi um japonês pedindo esmola. Eu não vi ainda um japonês no Bolsa Família” Durante cerimônia de Lançamento do Programa Nacional de escolas Cívico-Militares (5/9/2019)

360 vezes

EXEMPLO:

“A ideologia invadiu a própria alma humana para dela expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos revestiu. E, com esses métodos, essa ideologia sempre deixou um rastro de morte, ignorância e miséria por onde passou”

Na abertura da Assembleia Geral da ONU (24/9/2019)

260 vezes

EXEMPLO:

“E por que isso daí? Eu devo fidelidade ao povo brasileiro. Eu nada fiz de errado durante a campanha. Foi quase toda ela feita pelo 02, o Carlos, na questão de propaganda. Foi o povo que voluntariamente foi à rua”

Durante Lançamento da ID Estudantil (6/9/2019)