O globo, n.31458, 23/09/2019. País, p. 08

 

De ministros a artistas amigos, a agenda de Bolsonaro 

Maiá Menezes 

Janaína Figueiredo 

23/09/2019

 

 

Em quase nove meses de gestão, o presidente Jair Bolsonaro priorizou despachos no Palácio do Planalto com seus ministros e funcionários; encontros com empresários, diplomatas e artistas amigos; eventos militares e evangélicos; conversas com seus filhos e congressistas mais próximos, entre eles o deputado Helio Lopes (PSL-RJ), conhecido como Helio Negão. Por outro lado, Bolsonaro recebeu poucos representantes de grandes multinacionais, de acordo com levantamento feito pelo GLOBO nos compromissos registrados na agenda presidencial nesse período.

Segundo a agenda pública de Bolsonaro, foram recebidos no Planalto presidentes e CEOs de Santander Brasil, Shell e Fiat Chrysler. A lista de empresários que se reuniram com o presidente inclui companhias menos conhecidas e, em outros casos, próximas a Bolsonaro desde a época da campanha, como o grupo Havan, de Luciano Hang. Mas a interação com grandes grupos empresariais estrangeiros é limitada. Nem mesmo no Foro Mundial de Davos, na Suíça, o presidente dialogou, segundo sua agenda, com empresários de projeção internacional.

A agenda de Bolsonaro tem brechas. Especialmente para os aliados de primeira hora, como Helio Negão, o deputado federal mais votado do país, com 345 mil votos, e amigo do presidente há mais de 20 anos. Apesar de alguns encontros constarem na agenda, não é incomum que Bolsonaro o convide para almoçar. Ou que inclua pedidos de audiência do parlamentar, eleito com o nome de Helio Bolsonaro, na agenda de ministros.

Outros nomes se repetem em sua agenda, como o do cantor Amado Batista, a advogada Karina Kufas (que colabora com o PSL desde a campanha) e o embaixador de Israel, Yossi Shelley. Bolsonaro costuma ainda dar entrevistas a youtubers como Antonia Fontenelle e Allan Santos, próximo do presidente e de seus filhos. O mundo rural também está presente. Em 21 de janeiro, Bolsonaro recebeu autoridades da Associação Brasileira de Criadores de Zebu.

—O presidente será sempre assim. Tem os hábitos dele. E confia em muito poucos. Um deles é o Helio Negão. Vive repetindo que se o Helio estivesse em Juiz de Fora (MG), a facada não teria acontecido —diz um amigo de Bolsonaro.

Formalmente, a agenda fica sob os cuidados de dois funcionários: Pedro César de Sousa, major reformado e chefe de gabinete; e Célio Faria Junior, ex-assessor parlamentar da Marinha e assessor-chefe. Mas as mudanças acontecem a critério do presidente. Em 29 de julho, Bolsonaro cancelou, na última hora, um encontro com o ministro das Relações Exteriores da França, JeanYves Le Drian, para cortar o cabelo —compromisso transmitido ao vivo em uma rede social. O episódio gerou um incidente diplomático entre os dois países e teve repercussão mundial.

POUCAS INAUGURAÇÕES

A agenda de Bolsonaro é escassa em inaugurações de obras públicas, lançamentos de pedras fundamentais e visitas a hospitais, escolas e bairros humildes. Em 12 de abril, o presidente viajou a Macapá para inaugurar o novo terminal de passageiros do aeroporto local, herdado de governos anteriores. Em 24 de maio, a visita foi a Petrolina (PE) para uma atividade do programa Minha Casa Minha Vida, também de seus antecessores.

As agendas de inaugurações e lançamentos dependem de uma carteira de investimentos que não está disponível para Bolsonaro. A expectativa do Tesouro é que, mesmo com a aprovação da reforma da Previdência, o governo vai recuperar sua capacidade de investimento em apenas três ou quatro anos. A expectativa é que a taxa de investimentos siga em torno de 0.5% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de riquezas produzidas pelo país).

O governo Lula, por exemplo, beneficiado pela conjuntura econômica internacional nos primeiros anos de seu mandato, anunciou e inaugurou grandes obras, em agendas que incluíam ainda os grandes eventos que aconteceram no Rio — também um estado naquele momento em ascensão. A pujança, antes da crise econômica de 2008, levou o petista a lançar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que o levou a várias inaugurações por todo o país. Deixou, para o primeiro mandato de sua sucessora, a presidente Dilma Rousseff, condições para também viajar para inaugurações e lançamentos de pedras fundamentais.

Já atividades relacionadas às Forças Armadas ocupam um lugar central na agenda presidencial atual. Em 7 de março, por exemplo, Bolsonaro viajou ao Rio para o 211º Aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais. Encontros com representantes de igrejas evangélicas também têm peso na agenda presidencial. Um deles ocorreu em 11 de abril, quandoBol sonar o veio ao Ri opara presenciar o Encontro do Conselho Inter den om inacional de Ministérios Evangélicos.

Os horários do presidente variam, mas raramente Bolsonaro inicia sua agenda antes das 8h e muitas vezes seu ultimo compromisso é por volta das 17h ou até antes. São frequentes os comentários sobre o cansaço do presidente. Em 22 de agosto, Bolsonaro bocejou várias vezes durante uma cerimônia em que foi anunciado um novo sistema digital para sites do governo. Fontes que conhecem bem o presidente dizem que os problemas de insônia continuam, e Bolsonaro fica até altas horas no celular, usando principalmente o WhatsApp. A falta de descanso influencia o humor do presidente.

Os incidentes diplomáticos são cada vez mais frequentes. O cancelamento do encontro com o chanceler francês foi criticado pelo presidente da França, Emmanuel Macron, durante o último encontro do G-7, no início deste mês. Um vídeo dos bastidores do encontro, divulgado por uma emissora francesa, mostra conversa de Macron com o presidente do Chile, Sebastián Piñera. Ele disse que a atitude de Bolsonaro não estava à altura de um presidente, afirmação com a qual Piñera, até pouco tempo um forte aliado do governo brasileiro na região, concordou. Ao ser questionado sobre o vídeo, na época, o porta-voz do Palácio do Planalto, Otávio Rêgo Barros, recusou-se a responder.

Semanas depois o presidente se envolveu em nova polêmica internacional. Ao acusar de ingerência em assuntos internos a alta representante das Nações Unidas sobre direitos humanos, Michelle Bachelete, ele justificou a morte de seu pai, general Augusto Bachelet, falecido pelas torturas sofridas na ditadura de Augusto Pinochet.