Título: Parceria para conter crimes
Autor: Mariz , Renata
Fonte: Correio Braziliense, 02/11/2012, Brasil, p. 8
Depois da troca de acusações protagonizada nos últimos dias pelo secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antonio Ferreira Pinto, e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sobre uma suposta omissão do governo federal em relação à onda de criminalidade na capital paulista, a presidente Dilma Rousseff tomou a frente da questão. Por volta das 14h de ontem, ela telefonou para o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, com uma proposta de parceria no combate à violência, que foi aceita. Ainda não estão fechados os detalhes da ação conjunta — se haverá emprego da Força Nacional, da Polícia Federal ou de homens das Forças Armadas, além de outros tipos de suporte. Uma reunião na próxima semana tratará desses pontos.
Essa operação conjunta rompe uma tradição da política de segurança pública do governo de São Paulo, que sempre se fez de rogado no que diz respeito a apoios explícitos da União. É a única unidade da Federação, por exemplo, sem nenhum preso enviado ao sistema penitenciário federal, apesar dos problemas causados nos últimos anos por integrantes de facções criminosas que estão atrás das grades. Também nunca fez uso da Força Nacional de Segurança Pública. E, no lugar de aderir ao programa do governo federal contra o crack, preferiu fazer uma operação própria, sem muitos efeitos práticos. A postura autossuficiente do estado, entretanto, é fruto da briga política entre o PSDB, que comanda São Paulo, e o PT.
Quem sai penalizado das picuinhas políticas, porém, é a população, aterrorizada com um novo recorde de homicídios na região metropolitana de São Paulo. Outubro fechou com 145 mortes, 86% a mais que no mesmo mês do ano passado. Em setembro — até então o mês mais violento do ano — foram 135 assassinatos. Entre a noite de quarta e a madrugada de ontem, houve pelo menos seis mortos, dos quais dois eram policiais militares. Para conter a violência, a PM ampliou a Operação Saturação para Campo Limpo e Capão Redondo, além de Paraisópolis, onde os agentes entraram após a descoberta uma lista com nomes de dezenas de policiais marcados para morrer. Só este ano, 88 PMs morreram — cerca de metade com indícios de execução.
Guerra Diretora executiva da Conectas, entidade não-governamental que atua na área da violência e justiça em São Paulo, acredita na possibilidade, refutada pelas autoridades locais, de uma briga entre criminosos e a polícia. Mas destaca que o problema não pode ser tão simplista. “Predomina hoje na área de segurança pública de São Paulo e de outras grandes cidades brasileiras um pensamento belicista, que reduz complexos problemas humanos a mero enfrentamento fictício entre o que se tenta vender como o bem contra o mal”, aponta. De acordo com ela, no lugar da política de confronto, é preciso haver “prevenção, inteligência, ênfase no aspecto de serviço por parte da polícia, fortalecimento da ouvidoria, proximidade e identificação com os moradores da cidade”.
Análise da notícia Velhos problemas » EDSON LUIZ Seis anos depois, a história se repete em São Paulo. As intrigas políticas entre os governos estadual e federal, novamente expõem a questão da segurança pública. Em 2006, após os ataques de uma facção criminosa em represália a ação policial em presídios, a União ofereceu ajuda ao então governador Cláudio Lembo. Porém, o estado não aceitou, alegando que tinha condições de, sozinho, combater o crime organizado.
Foram muitas tentativas, até que o governo paulista aceitou um intercâmbio com a Polícia Federal e as Forças Armadas na área de inteligência policial. Aliás, a própria PF havia alertado o estado, dias antes, de que os ataques poderiam acontecer. Porém, ninguém tomou providências. Foi preciso longa negociação, após as mortes, para que o problemas fossem resolvidos. Além da questão política, há um fator que afeta a área de segurança pública: o medo de enfraquecimento das forças policiais.
São Paulo também não quer adotar nas áreas violentas outros modelos de segurança pública, como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Foi isso que o secretário Antônio Ferreira Pinto deixou claro, no início da semana. Enquanto isso, a população da maior cidade brasileira fica exposta ao ver crescer os índices de criminalidade, principalmente os homicídios.