Título: Embates se intensificam na Europa
Autor: Cavalcanti, Leonardo
Fonte: Correio Braziliense, 15/11/2012, Economia, p. 15
Houve greve e manifestações contra a austeridade ontem em 23 países do continente. Na Espanha, foram presas 118 pessoas e 74 se feriram em confrontos com a polícia
Enviado especial Cádiz (Espanha) – Uma manifestação rápida e silenciosa contra a crise europeia ocorreu ontem na cidade que receberá amanhã a XXII Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo, na qual estará presente a presidente Dilma Rousseff. Mas em outras cidades espanholas, o clima foi bem mais tenso, incluindo conflitos entre manifestanes e policiais. Em toda a Espanha, foram presas 118 pessoas, duas delas sob a acusação de carregar material para fazer explosivos. Em Madri, a polícia usou balas de borracha contra os manifestantes, deixando 74 pessoas feridas. Houve conflito entre policiais e manifestantes também em Portugal e na Itália, onde 60 pessoas foram detidas.
Sindicatos de trabalhadores promoveram greves, ou, ao menos, manifestações, em 23 países europeus, sob o argumento de que os cortes de gastos promovidos por governo agravam ao invés de solucionar a crise que o continente atravessa. É exatamente o argumento que Dilma tem usado ao tratar da crise global (leia texto abaixo). "Na austeridade, há apenas depressão e desemprego", disse Fernando Toxo, líder do maior sindicato espanhol, a dezenas de milhares de manifestantes no centro de Madri.
Por conta da greve, centenas de voos foram cancelados, escolas foram fechadas, fábricas ficaram paralisadas e poucos trens circularam na Espanha e em Portugal, de acordo com a agência Reuters. Em Portugal e na Grécia, a recessão econômica se aprofundou no terceiro trimestre, de acordo com informações divulgados ontem. Os dois países receberam ajuda de fundos europeus e são obrigados a cumprir programas de austeridade draconianos. A produção grega encolheu 7,2% na base anual no terceiro trimestre. Com uma dívida que equivale a 120% do Produto Interno Bruto (PIB), o país caminha para o sexto ano de recessão. Quase 26 milhões de pessoas estão desempregadas na União Europeia.
"Todo mundo tem de fazer alguma coisa para chamar atenção para o que está acontecendo", disse à Reuters o proprietário de uma loja de ferragens de Barcelona Esteban Quesada, de 58 anos, que fechou sua loja para participar dos protestos na segunda maior cidade da Espanha. "As coisas têm que mudar... O dinheiro acabou ficando com todo o poder e as pessoas, com nenhum. Como isso pôde acontecer?", indagou.
Na manifestação de Cádiz, um ato com cerca de sete mil pessoas, segundo números da polícia local, ocorreu por menos de duas horas, ainda no início da tarde. Ao longo do dia, o comércio e os serviços fecharam e o transporte público e privado funcionou de forma mínima, o que deixou a cidade silenciosa.
O que se destacavam eram os policiais, preparados para receber os chefes de Estado na conferência a partir de amanhã. Dilma chegará amanhã, quando deverá se reunir com os chefes dos 22 países que participam da cúpula iberoamericana. Apenas não confirmaram presença os presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, da Venezuela, Hugo Chávez, da Guatemala, Raúl Castro, e da Guatemala, Otto Pérez. A presidente permanecerá em Cádiz na sexta-feira e no sábado. No domingo ela estará em Madri, onde deve se encontrar com o rei Juan Carlos pela manhã. À tarde participará de um seminário.
O debate mais frequente na Espanha hoje é sobre o alto índice de desemprego. A média nacional é de 25%, mas a depender da faixa etária pode chegar a 50%. Em Cádiz, localizada no extremo sudoeste da Europa continental, a taxa média de desocupação é de 37%. A crise de crédito e o déficit público, entretanto, são as maiores preocupações do atual governo de direita espanhol, comandado por Mariano Rajoy, do PP.
Alerta de Lagarde A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, disse ontem que "não há onde se esconder" na economia global, à medida que a desaceleração na Europa e em outros países avançados se espalha para a Ásia e há incertezas sobre ao "abismo fiscal" norte-americano. Em visita à Malásia, Lagarde disse que os Estados Unidos precisam evitar medidas que levem a maior economia do mundo à recessão, diminuindo o crescimento no resto do mundo.