Título: Enfim, a trégua
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 22/11/2012, Mundo, p. 22

Sob a mediação do Egito, governo de Benjamin Netanyahu e as facções palestinas concordam com o cessar-fogo, que teve início às 17h de ontem. Moradores do sul de Israel denunciam violação. Atentado a ônibus deixa 28 feridos, no centro de Tel Aviv

Na Faixa de Gaza, os fogos de artifício substituíram o barulho mortífero e ensurdecedor das bombas, às 17h de ontem (hora de Brasília). "Há uma vitória da resistência em Gaza, apesar de tantos civis terem morrido. Esta é a resistência, é por isso que estávamos esperando. Nós estamos celebrando a paz. Conseguimos nos levantar contra um dos exércitos mais poderosos do mundo", declarou o ativista palestino Majed Abusalama, por telefone. Ao fundo, era possível ouvir gritos e um buzinaço. Enquanto os palestinos celebravam, o músico israelense Tal Rotem, 35 anos, se escondia com a mulher e os filhos num bunker. Cerca de 45 minutos depois do início da trégua anunciada pelo Egito, a cidade de Beersheva — 25km ao sul da fronteira com Gaza — sofria novo ataque com foguetes. "Eles falaram num cessar-fogo, mas eu acredito é na justiça. Você não pode fazer a paz com quem deseja matá-lo", desabafou Rotem, em entrevista ao Correio, por telefone. "Ontem, um foguete caiu a 200m de minha casa", acrescentou, em meio a suspiros. Segundo a agência Reuters, 12 artefatos haviam sido lançados na primeira hora da trégua.

O anúncio do cessar-fogo foi feito no Cairo, durante uma entrevista coletiva com a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, e o chanceler egípcio, Mohamed Kamel Amr. "O Egito abriu contato com todas as facções palestinas, com Israel e com os Estados Unidos, e esses esforços chegaram a um acordo para o cessar-fogo e para o retorno da tranquilidade. A trégua começará às 21h (17h em Brasília)", afirmou Amr. Pelas bases do acordo verbal — não houve assinatura de documentos —, Israel e os militantes de Gaza e da Cisjordânia se comprometeram com a suspensão das hostilidades. Às 17h de hoje, está previsto o início de negociações sobre vários aspectos do conflito, incluindo aqueles relacionados à fronteira. "Este é um momento crítico para a região. As pessoas desta região merecem uma chance", comentou Hillary. "Nos próximos dias, os EUA vão trabalhar com os parceiros da região para consolidar este processo, melhorando as condições de vida dos habitantes de Gaza e de segurança de Israel." Poucas horas antes, dois foguetes foram lançados do sul do Líbano em direção a Israel.

De acordo com o jornal Jerusalem Post, o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, conversou com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e atendeu a recomendação do colega de dar uma chance à proposta de trégua elaborada pelo Egito. Depois do início do cessar-fogo, Obama telefonou para o homólogo egípcio, Mohamed Mursi, e a Netanyahu, a fim de agradecer o empenho de ambos.

Explosão

Um atentado à bomba contra um ônibus, no centro de Tel Aviv, quase pôs por terra qualquer chance de trégua. Por volta de meio-dia (8h em Brasília), um suspeito lançou um artefato dentro do veículo e fugiu. A explosão ocorreu no cruzamento das ruas Shaul Hamelekh e Henrietta Szold, a 200m da sede do Ministério da Defesa de Israel, e deixou 28 feridos, um deles em estado grave. As vítimas foram levadas ao Hospital Ichilov. No momento da detonação, a jornalista sul-matogrossense Ana Beatriz de Arruda Alves, de 31 anos, aguardava uma consulta no próprio hospital, a três quadras do local do ataque. "Eu comecei a ouvir muito barulho de ambulâncias. Fui para o corredor e vi na tevê o que estava ocorrendo. Diante do hospital, havia uma grande confusão. Vi os feridos chegarem. Hoje (ontem), eu vi o medo no rosto das pessoas", relatou ao Correio, por telefone. Foi o primeiro atentado do tipo a sacudir Tel Aviv nos últimos cinco anos. "Allahu akbar ("Deus é o maior", em árabe), os heróis da resistência atacaram o coração da entidade sionista", as palavras soaram nos alto-falantes de mesquitas da Cidade de Gaza.

"Abençoamos o ataque a Tel Aviv e o vemos como uma resposta natural aos massacres israelenses em Gaza", afirmou Abu Zuhri, um dos porta-vozes do Hamas, à agência Reuters. A Brigada dos Mártires de Al-Aqsa — a ala militar do Fatah — reivindicou a explosão. "Estes ataques contra civis inocentes israelenses são escandalosos", declarou a Casa Branca, por meio de uma nota, na qual enfatizou o seu "compromisso com a segurança de Israel". O ministro da Saúde da Faixa de Gaza, Mufeed Al-Mukhalalati, disse à reportagem que os oito dias da Operação Pilar de Defesa deixaram 161 palestinos mortos e 1.230 feridos. "Os bombardeios israelenses pararam às 21h. Dez minutos antes, eles ainda estavam nos atacando."