Correio braziliense, n.20759, 24/03/2020. Saúde, p.14

 

Testes para todos

Paloma Oliveto

24/03/2020

 

 

Com o número de novos casos aumentando em ritmo acelerado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) defendeu o desenvolvimento de testes rápidos e a testagem em massa da população. Em uma coletiva de imprensa virtual, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, afirmou que diagnosticar o maior número de pessoas possível é, ao lado da quarentena, a medida que poderá “alterar a trajetória” do coronavírus.
Ghebreyesus destacou que, em 67 dias, 100 mil foram infectados, mesmo número registrado 11 dias depois. Passados quatro dias da penúltima contagem, já eram 300 mil casos. Um balanço da agência France Presse indicou que, desde o surgimento do vírus, em dezembro, 341 mil pessoas foram contagiadas, com 15,1 mil mortes em 174 países. Porém, a quantidade de infecções pode ser muito maior, já que, em muitos lugares, incluindo o Brasil, nem todo paciente com sintomas é testado.
“Pedir às pessoas que fiquem em casa e estabelecer outras medidas físicas de distanciamento é uma maneira importante de retardar o avanço do vírus e de economizar tempo, mas são medidas defensivas, que não nos ajudarão a vencer”, afirmou. O diretor-geral da OMS reconheceu, contudo, que muitos países não têm recursos para oferecer testes em massa.
Crítica
Na coletiva, Ghebreyesus condenou o uso de medicamentos que ainda não passaram pelas fases necessárias de ensaio clínico. Na semana passada, o anúncio, por parte do presidente norte-americano, Donald Trump, de que um remédio antimalária seria aprovado para uso contra a Covid-19 levou milhares de pessoas no mundo todo a esgotá-lo das farmácias. Mesmo com a Food and Drugs Administration (FDA) desmentindo Trump em seguida — o órgão esclareceu que essa droga tem prioridade nas avaliações, mas ainda não foi liberada com esse fim —, a cloroquina sumiu das farmácias, com pessoas se automedicando e arriscando as próprias vidas. “Pequenos estudos, feitos a partir de observações, não nos darão as respostas que precisamos”, alertou. 
O estudo sobre a eficácia da cloroquina com maior número de pacientes incluiu somente 100 pessoas, internadas em hospitais chineses, que receberam a droga em combinação a outros retrovirais. Embora a substância seja considerada promissora, ainda é preciso investigar a ação e a segurança no organismo em um número muito maior de participantes. “O uso de medicamentos que não foram testados e cuja eficácia é desconhecida pode gerar falsas esperanças e causar mais mal do que bem, além de levar à escassez de medicamentos essenciais para o tratamento de outras doenças”, destacou o diretor-geral da OMS.
 O editor-chefe de uma das revistas científicas mais importantes do mundo, a Science, condenou ontem, em um editorial, a oferta de falsas esperanças à população. “Estão pedindo à ciência uma solução rápida para um problema que nem foi descrito completamente”, afirmou H. Holden Thorp, referindo-se ao fato de que o vírus ainda não é totalmente conhecido. “Estou preocupado que a ciência acabe prometendo em excesso soluções em resposta à Covid-19”, disse. Segundo o editor, não que se faça isso de propósito. Os cientistas precisam divulgar os resultados do que vêm estudando. O problema, de acordo com Thorp, é que esses dados ainda básicos, que precisam ser replicados em diversas outras pesquisas, vêm sendo usados politicamente para “criar falsas expectativas”.
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Resultado em 45 minutos

24/03/2020

 

 

Um novo teste rápido para detecção da Covid-19 estará disponível nos Estados Unidos na próxima semana. Desenvolvido pela Cepheid, empresa de diagnóstico molecular, ele foi avaliado por uma equipe da Universidade de Rutgers, que aprovou a eficácia do produto.

De acordo com David Alland, diretor do Instituto de Saúde Pública da Rutgers New Jersey Medical School, o teste foi capaz de identificar quantidades extremamente pequenas de material genético do vírus Sars-CoV-2. “Quando repetimos esse teste usando vírus vivos, também conseguimos identificar níveis muito baixos. Isso sugere fortemente que o teste será altamente eficaz na identificação de casos da Covid-19”, conta.

Alland explica que, atualmente, os testes são enviados para um laboratório, e os resultados podem levar de um a cinco dias. O novo fará o diagnóstico em 45 minutos. “Ele será um divisor de águas para decisões médicas cruciais, incluindo a triagem de pacientes, quando isolar e como tratar. Além disso, como o mundo continuará a precisar gerenciar a Covid-19 nos próximos anos, a capacidade potencial desse teste para ser usado em consultórios médicos, clínicas e até em unidades móveis pode ajudar a detectar novos pequenos surtos de doenças antes de os grandes surtos de escala reaparecem.”

Brasil

No Brasil, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estão desenvolvendo um novo teste para detectar anticorpos em pacientes com suspeita de Covid-19 de forma mais simples, rápida e quatro vezes mais barata que o método de PCR.

Segundo a professora Leda Castilho, o teste tem como objetivo detectar os anticorpos anticoronavírus no sangue. “Quando a pessoa é infectada pelo vírus, o sistema imunológico passa a produzir anticorpos contra ele, na tentativa de neutralizá-lo. Alguns tipos de anticorpos são detectáveis já uma semana após o contágio, enquanto outros levam quase duas semanas para serem produzidos e permanecem por muito tempo”, explica. “A proposta é detectar os dois tipos de anticorpos, possibilitando determinar tanto se uma pessoa com sintomas respiratórios é positiva para Covid-19, quanto, por exemplo, mapear pessoas que já tenham sido infectadas anteriormente, mesmo que não tenham tido sintomas”, diz a pesquisadora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ. (PO)