Título: Velho conflito, novo cenário
Autor: Tranches, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 25/11/2012, Mundo, p. 24

Guerra entre Hamas e Israel evidencia uma mudança na geopolítica da região, com o fortalecimento da facção palestina e a sua aproximação de governos antes considerados inimigos. Regimes aliados ao Ocidente experimentam maior independência

Nas últimas duas semanas, o mundo assistiu a cenas repetidas de um antigo conflito. Mas o cenário político em que se desdobrou e a recente crise entre o Hamas e Israel expôs uma nova arquitetura de forças no Oriente Médio. Os eventos da Primavera Árabe, especialmente no Egito, foram os responsáveis pelas principais mudanças na região. Outros fatores — como a aproximação da facção palestina a regimes antes considerados rivais e seu fortalecimento militar, além de políticas mais independentes adotadas por antigos aliados do Ocidente — traçaram um quadro muito diferente ao do conflito anterior, ocorrido entre 2008 e 2009.

O confronto entre palestinos e israelenses foi o primeiro desde a onda de revolta no mundo árabe, iniciada no fim de 2010. Na última quarta-feira, depois de oito dias de bombardeios consecutivos, um cessar-fogo foi anunciado e reivindicado como vitória pelas duas partes. Se por um lado Israel reafirmou sua hegemonia e seu poderio militar, por outro, o grupo Hamas saiu fortalecido politicamente, como avaliam analistas ouvidos pelo Correio. A facção controla a Faixa de Gaza desde 2007 e divide o poder político palestino com o moderado Fatah, que administra a Cisjordânia.

Em um primeiro momento, o Hamas, uma facção islâmica, já havia se beneficiado das mudanças democráticas nos países árabes. Em muitos deles, governos ligados ao islã ascenderam ao poder, como ocorreu na Tunísia e, especialmente, no Egito. A eleição de Mohamad Morsy, um presidente ligado à Irmandade Muçulmana, mostrou que as relações entre os países na região já não são as mesmas da era Hosni Mubarak, destituído em fevereiro de 2011. “Israel começou a perceber que Morsy não é Mubarak”, afirmou o analista Bassem Eid, diretor do Grupo Palestino de Monitoramento dos Direitos Humanos (PHRMG).

Um dos dois únicos países árabes a reconhecer o Estado de Israel (a Jordânia é o outro), o Egito sempre desempenhou o papel de mediador no conflito com os palestinos. Mas a mudança de postura, em que Morsy não se alinhou automaticamente ao governo hebraico, como fazia o ex-ditador, deu força ao Hamas para negociar, como avaliou o egípcio Mohamed Ezz El-Din Mostafa Habib, vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (São Paulo). Na opinião de Habib, Israel praticamente continuou como o único país sólido na região, mas as transformações recentes foram fundamentais para fazer deste um conflito muito dispare daquele de quatro anos atrás. “A participação do Egito tem responsabilidade em 80% por esse cenário diferente”, afirma.

Tabuleiro

Além da inclinação a Israel, com quem assinou acordos de paz em 1978 e em 1979, o Egito era considerado um importante aliado do Ocidente na região, assim como a Arábia Saudita e a Turquia. Atualmente, porém, as peças estão posicionadas de modo diferente no tabuleiro. O especialista iraniano em Oriente Médio do Departamento de Assuntos de Segurança Nacional da Escola Naval da Califórnia (EUA) Ahmad Ghoreishi considera que a monarquia saudita ainda desempenha o mesmo papel. No entanto, a Turquia e o Egito estão muito mais independentes em suas políticas.

Ghoreishi pondera que o Hamas deu passos nessa reconfiguração e conseguiu romper seu isolamento internacional. “O Hamas costumava ser muito próximo da Síria, por exemplo, mas hoje não. A facção recebe, inclusive, dinheiro de doadores da Arábia Saudita e do Catar”, explicou, se referindo aos governos rivais ao sírio. Em setembro, o líder da facção palestina, Khaled Meshal, fechou seu escritório em Damasco. Desde então, tem passado a maior parte do tempo em Doha, de acordo com as agências internacionais. O Catar é um dos países que apoiam os rebeldes sírios nas tentativas de destituir o ditador Bashar Al-Assad. No mês seguinte, o emir do Catar, xeque Hamad Ben Khalifa Al-Thani, visitou a Faixa de Gaza, o primeiro chefe de Estado a fazê-lo desde 2007. Na última semana, chanceleres de vários países árabes entraram no território por meio da fronteira egípcia.

Trégua frágil

Em dezembro de 2008, ao fim de um cessar-fogo acertado 7 meses antes, o grupo Hamas decidiu não renovar a trégua com Israel por entender que o país não havia cumprido com o compromisso de suspender o bloqueio imposto à Faixa de Gaza. A partir de 27 daquele mês, as Forças de Defesa de Israel lançaram uma ofensiva contra a facção no território, com ataques aéreos a alvos específicos. Em 3 de janeiro de 2009, o país levou adiante uma incursão por terra, com tropas e tanques. Em 22 dias de conflito, encerrado com um cessar-fogo em 18 de janeiro, o saldo foi 1.417 palestinos e 13 israelenses mortos. A crise deste mês, que durou oito dias, terminou com a morte de 162 do lado palestino e seis do israelense.