O globo, n. 31641, 24/03/2020. Especial Coronavírus, p. 10
Datafolha: Mandetta é mais bem avaliado que Bolsonaro
Daniel Gullino
Gustavo Maia
Thais Arbex
Naira Trindade
24/03/2020
O Datafolha divulgou ontem a primeira pesquisa sobre a atuação do presidente Jair Bolsonaro na crise do coronavírus. Houve equilíbrio entre os que consideram seu desempenho ótimo ou bom (35%) e os que avaliam como ruim ou péssimo (33%). Os números de Bolsonaro, porém, foram piores do que os dos governadores, que tiveram, em média, uma avaliação positiva de 54% dos entrevistados no combate à pandemia.
O presidente vem acumulando brigas com os chefes do Executivo nos estados, mas ontem amenizou o tom. No domingo, ele havia declarado que governadores “enganam a população”, e chegou a chamá-los de “exterminadores de empregos” por causa das restrições impostas e seu impacto na economia. Bolsonaro começou a se reunir ontem com os governadores, numa videoconferências com os dos estados do Nordeste e do Norte. Hoje, se reunirá com os demais. O presidente disse que na conversa de ontem predominou a “cooperação” e o “entendimento”.
A pesquisa Datafolha mostrou ainda que 55% avaliam de forma positiva o trabalho do Ministério da Saúde e do ministro da pasta, Luiz Henrique Mandetta.
Em rápido pronunciamento após as duas reuniões, Bolsonaro afirmou que as videoconferências foram “excepcionais” e disse que o coronavírus é o “inimigo comum” de todos, sem deixar de ressaltar preocupação com o desemprego. O presidente se disse “muito feliz”, agradeceu aos governadores e afirmou que eles apresentado pedidos “de forma muito justa”.
—O que mais imperou entre nós foram as palavras cooperação e entendimento. Sabemos e temos a consciência que o efeito colateral, que pode ser o desemprego, pode ser combatido. Então, partindo essa premissa, foram duas reuniões excepcionais, onde anunciamos reposta às cartas dos governadores e de associações representativas dos prefeitos.
O discurso foi bem diferente do que vinha sendo adotado até então. Anteontem, em entrevista à TV Record, Bolsonaro disse que governadores “fogem de sua responsabilidade e atacam governo federal” e que “brevemente, o povo saberá que foram enganados por esses governadores e por grande parte da mídia nesta questão do coronavírus”. Disse ainda fazer contato direto com prefeitos para tratar da pandemia, porque alguns governadores estariam criando uma crise “muito pior do que o próprio coronavírus”.
As brigas com governadores como os do Rio, Wilson Witzel, e de São Paulo, João Doria, foram os atritos políticos mais visíveis do presidente na semana passada.
RECURSOS
Governadores do Norte e do Nordeste avaliaram o diálogo como positivo, mas ainda esperam saber os critérios para a distribuição dos recursos anunciados. Há dúvida, principalmente, em relação aos R$ 8 bilhões anunciados para ações na saúde. O ministro da Saúde fará uma videoconferência com os secretários estaduais da área amanhã para discutir o tema. De acordo com os participantes, Bolsonaro e seus auxiliares também não conseguiram explicar como serão aplicado os R$ 2 bilhões prometidos para a assistência social.
— Não dá para lamentar nem comemorar. Embora tenha sido positivo por ter havido uma reunião, em que o governo reconheceu e atendeu parte de nossa agenda, ficaram algumas lacunas — disse ao GLOBO o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).
Os governadores também propuseram que as compras de insumos sejam unificadas pelo governo federal, para se obter preços melhores.
—Não ficou claro como serão distribuídos os recursos, se é o governo federal que vai contratar e repassar insumos ou se destinará o dinheiro para estados e municípios para efetivar as compras —afirmou o governador da Bahia, Rui Costa (PT).
Bolsonaro manteve aprovação alta em meio aos casos de Covid-19 entre os homens: 42% consideram a gestão da crise ótima e boa, enquanto entre as mulheres o índice é de 29%. O desempenho de Bolsonaro diante da crise é desaprovada por 41% dos nordestinos, 34% de quem mora no Sudeste, 24% dos moradores do Norte e Centro-Oeste e no Sul por 23%. O Datafolha ouviu 1.558 pessoas por telefone, entre 18 e 20 de março. A pesquisa tem margem de erro de três pontos para mais ou para menos.
Bolsonaro se irritou ontem ao ser questionado sobre os números:
—Perguntam se a popularidade do Mandetta está mais alta que a minha. Às favas!