Título: Jerusalém sob fogo
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 17/11/2012, Mundo, p. 21

Pela primeira vez, um foguete lançado pelo Hamas atinge a cidade sagrada. Israel convoca 75 mil reservistas e isola Gaza»

Durou apenas dois minutos, mas foi tempo suficiente para que os moradores de Jerusalém percebessem que não estão seguros. Por volta das 16h50 (12h50 em Brasília), as sirenes antiaéreas soaram por toda a cidade. Pela primeira vez na história, um foguete lançado a partir da Faixa de Gaza atingia a cidade, pouco depois de as Brigadas Izz Al-Din Al-Qassam — a ala militar do movimento fundamentalista islâmico Hamas — terem prometido uma “surpresa”. Um foguete Qassam M-75 caiu numa área aberta de Kfar Etzion, no sul de Jerusalém. Telavive também voltou a ser alvo dos militantes palestinos, mas o artefato teria se espatifado no mar, sem causar danos ou feridos.

Com as duas metrópoles sob ameaça, o governo israelense decidiu mobilizar 75 mil reservistas, depois de uma reunião em Telavive do gabinete de segurança do premiê Benjamin Netanyahu. Ao mesmo tempo, o Exército bloqueou todas as rotas principais em torno da Faixa de Gaza e declarou o território “zona militar fechada”. Um jornalista da agência France-Presse relatou ter visto blindados de transportes de tropas e tanques próximo ao posto fronteiriço entre Israel e a Faixa de Gaza.

Morador de Jerusalém, o vigilante Asara (ele não quis ter o sobrenome revelado) disse ao Correio que ficou surpreso com o acionamento do alarme antiaéreo. “Depois das sirenes, escutei o barulho de fogos de artifício nos assentamentos e bairros árabes da cidade”, comentou. “Eu morava em Sderot, no sul, então, fiquei chocado. Acreditava-se que Jerusalém era o último local para um bombardeio.” Asara ajudou vários moradores a encontrarem abrigo nos bunkers. Ele acredita que o Hamas terá condições de realizar um novo ataque, pelo menos até uma possível incursão terrestre em Gaza. “Parece um gesto desesperado do Hamas. Esse ataque também revela as intenções reais da facção. Aqui em Jerusalém, temos árabes e a Mesquita de Al-Aqsa. Então, nem o islã nem a própria nação importam para eles.

Para Rafael Edad, embaixador de Israel no Brasil (leia o Cara a cara), o Hamas busca a morte de civis, de modo deliberado e premeditado. “Estão lançando mísseis contra Jerusalém. Você pode imaginar se algum deles cai no Santo Sepulcro ou sobre as mesquitas dos muçulmanos? São terroristas sem responsabilidade. O único objetivo deles é matar e criar conflito.”

Invasão

Na Faixa de Gaza, o medo de uma operação militar histórica incomoda o jornalista Samy Elajramy, que quase perdeu a filha de 9 anos num disparo de um tanque israelense, na quinta-feira (leia abaixo). “Tenho escutado o noticiário e o que se fala é que Gaza sofrerá uma invasão por terra, como na guerra entre 2008 e 2009. Mais de 1 mil pessoas morreram”, lembra. Na ocasião, a Operação Chumbo Grosso contou com 10 mil reservistas. “Há filas intermináveis diante das padarias. Quase todos os supermercados da Cidade de Gaza estão com as prateleiras vazias, mas as pessoas ainda buscam comida”, relata Samy.

Até o fechamento desta edição, a Operação Pilar de Defesa, iniciada por Israel na quarta-feira, havia matado 29 palestinos e três israelenses. Uma ofensiva das forças israelenses teria culminado ontem na morte de Ahmed Abu Jalal, o comandante do Hamas responsável pelos ataques anti-tanque. Segundo o jornal Haaretz, mais de 550 foguetes lançados a partir de Gaza explodiram em Israel nos últimos três dias. A aviação israelense atacou 500 alvos no território palestino.

O presidente Mahmud Abbbas acusou Israel de tentar minar os esforços da Autoridade Palestina para a obtenção da condição de Estado observador na Organização das Nações Unidas. O mandatário deve apresentar a demanda em Nova York no próximo dia 29. O premiê egípcio, Hesham Mohamed Kandil, visitou ontem a Cidade de Gaza e expressou solidariedade com o povo palestino.