Título: Relatório da CPI sem Gurgel nem jornalistas
Autor: Caitano, Adriana
Fonte: Correio Braziliense, 29/11/2012, Política, p. 5

Odair Cunha tira do texto final pedido para indiciar repórteres e investigar o procurador-geral, mas votação é adiada novamente

O deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga a ligação entre agentes públicos e o esquema criminoso do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, alterou a lista de indiciamentos de seu parecer final, na tentativa de facilitar a aprovação do texto. Ao ler ontem um resumo do relatório de 5 mil páginas apresentado na semana passada, Cunha desistiu de pedir o indiciamento de cinco jornalistas e a investigação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. A mudança, porém, não garantiu consenso e a votação do parecer foi adiada para quarta-feira da semana que vem.

As duas alterações feitas por Cunha amenizaram algumas críticas feitas ao texto original. "Havia incluído esses itens porque os considerava importantes, mas achei por bem retirá-los para representar o pensamento médio do colegiado e viabilizar a votação, e porque não são questões centrais, como é o núcleo da organização criminosa e as empresas que contribuíram efetivamente para seu funcionamento", argumentou o relator. "Com a mudança, retirou-se a cortina de fumaça que havia no relatório", ponderou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ).

Mas a manutenção do pedido de indiciamento de 29 pessoas — entre eles o próprio Cachoeira, a mulher dele, Andressa Mendonça, e o dono da Delta Construções, Fernando Cavendish — e a responsabilização de 12 agentes públicos, como o governador de Goiás, Marconi Perillo, ainda divide os integrantes da CPI. "O relator quer indiciar pessoas que não foram ouvidas nem tiveram os sigilos quebrados. Não quero correr o risco de punir alguém que não tem nada a ver com a história ou deixar de punir quem merece", comentou o deputado Luiz Pitiman (PMDB-DF), que disse estar indeciso sobre como vai votar. "Ainda não entendi se essas alterações foram uma estratégia dele ou um erro".

Sem acordo Diante das reclamações remanescentes, o presidente da comissão, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), tentou selar um acordo com os demais integrantes da CPI para que as sugestões não incorporadas por Cunha ao parecer fossem votadas separadamente. O relator, no entanto, discordou da proposta. "As sugestões devem ser ou não acatadas por mim, quem não concorda com o relatório precisa votar contra ele todo", declarou.

A oposição promete lutar contra o parecer. "Vamos trabalhar pela derrubada integral do texto, que é incorrigível e tem muitas incoerências, como o fato de vários governadores terem sido citados, mas apenas Perillo ser investigado", ressaltou o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). "Se não conseguirmos, queremos votar os pontos divergentes em destaque, o que acontece normalmente em outras CPIs".

De acordo com o relator, nos seis meses de trabalho, a CPI do Cachoeira analisou a quebra de 92 sigilos bancários, 91 sigilos fiscais e 88 sigilos telefônicos de pessoas físicas e jurídicas. Também reuniu informações sobre mais de R$ 84 bilhões em movimentações financeiras, com a identificação de 117 empresas suspeitas e de mais de 1,3 mil pessoas físicas que receberam recursos delas.