Título: Opositores rejeitam nova Constituição
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Fonte: Correio Braziliense, 10/12/2012, Mundo, p. 13
FSN programa manifestação contra referendo sobre a Carta. Protestos seguem mesmo depois de presidente revogar decreto que lhe concedia amplos poderes
A decisão do presidente do Egito, Mohamed Morsy, de cancelar o decreto que lhe dava amplos poderes não foi suficiente para pôr fim à grave crise política que atinge o país. Após uma reunião ontem, a opositora Frente de Salvação Nacional (FSN) rejeitou o projeto de Constituição que o governante quer submeter a referendo no próximo dia 15 e convocou uma nova manifestação para amanhã. “Não reconhecemos o projeto de Constituição, porque não representa o povo egípcio”, declarou Sameh Ashur, porta-voz da FSN.
No sábado, depois de quase três semanas de intensos protestos nas ruas do Cairo, Morsy anunciou um novo decreto, que retirava a polêmica cláusula que reforçava seus poderes. No entanto, ele não aceitou desmarcar o referendo sobre a nova Constituição, outra exigência dos opositores. Por conta disso, a FSN, presidida pelo prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, manteve os protestos. Para Ahmed Said, um dos líderes opositores, a decisão presidencial de seguir adiante com a consulta é “chocante”. “Eu não consigo imaginar que, depois de tudo, eles queiram passar uma Constituição que não representa todos os egípcios”, afirmou.
O argumento do governo é de que a atual lei prevê uma votação 15 dias depois da entrega do texto ao presidente, o que foi feito em 1º de dezembro. Caso os eleitores rejeitem o projeto de Constituição, uma votação para eleger uma Assembleia Constituinte será organizada. A oposição, no entanto, acusa o texto, da forma como está, de abrir caminho para a islamização da legislação. A Constituição desejada por Morsy, afirma a FSN, não apresenta garantias às liberdades, principalmente de expressão e de religião.
Exército A falta de entendimento entre os principais atores políticos torna ainda mais incerto o futuro da nascente democracia egípcia. No dia em que Morsy anunciou o cancelamento dos amplos poderes, o Exército egípcio se manifestou pela primeira vez desde o início da atual crise. Por meio de um comunicado, as Forças Armadas exigiram que o governo liderado pelos islamitas e seus adversários iniciassem um diálogo e alertaram que não permitirão que os últimos acontecimentos tomem uma direção desastrosa.
“O diálogo é o melhor e o único caminho para chegar a um acordo e alcançar os interesses da nação. O oposto disso nos levará a um túnel escuro com resultados desastrosos — e isso não vamos permitir”, dizia um trecho da nota. Ontem, enquanto manifestantes protestavam em frente ao palácio presidencial, caças da Força Aérea sobrevoavam a capital, Cairo, em baixa altitude.
Mortes
O decreto adotado pelo chefe de Estado, em 22 de novembro, provocou uma forte onda de contestação no Egito, acompanhada de manifestações que em alguns momentos levaram a confrontos entre a população e as forças de segurança. Na noite de quarta para quinta-feira, por exemplo, sete pessoas morreram no Cairo durante embates.