Correio braziliense, n. 20785 , 19/04/2020. Cidades, p.15
Um risco invisível
Alan Rios
19/04/2020
O coronavírus é perigoso também em razão do número de pacientes assintomáticos, que na maioria das vezes não sabem que estão infectados e, mesmo assim, podem transmitir a doença. Por isso, especialistas garantem que a melhor forma de prevenção é o isolamento social
Isabela Fialho, 22 anos, não ficou gripada nem sentiu febre ou dificuldade para respirar. Mesmo sem os sintomas clássicos de Covid-19, a publicitária cumpriu as determinações de especialistas em saúde e só saiu de casa quando foi necessário. Mas ela poderia ter sido uma das várias jovens que não se preocuparam com a doença e continuaram levando a vida normalmente, sem seguir as orientações do isolamento social. Se tivesse feito isso, provavelmente haveria transmitido o vírus para mais pessoas. Mesmo assintomática, Isabela descobriu que estava contaminada com coronavírus. Casos como esses servem como alerta para a importância de a população cumprir o isolamento social.
“As pessoas acham que quem tem coronavírus necessariamente sente falta de ar, febre, tosse. Por isso, tem gente que não está com esses sintomas e acaba saindo muito, fazendo reunião em casa de amigo. Mas não é bem assim. A doença pode estar em qualquer um”, diz a jovem. Isabela só descobriu a contaminação quando percebeu uma leve perda no paladar e dificuldade para sentir cheiros. “Achei que era sinusite, mas demorou a passar e fui falar com meu médico. Ele pediu o teste e comprovou a doença.”
Diante do resultado, a jovem sentiu medo e apreensão, principalmente por conta dos parentes que convivem com ela em casa. A publicitária não precisou de internação hospitalar e, agora, cumpre a quarentena domiciliar, sem contato com ninguém.
Isabela diz, ainda, que não sabe como pode ter sido infectada, e acredita que a população deve lembrar dos casos assintomáticos para combater o avanço do coronavírus. “Esse é um momento de parar de pensar só no ‘eu’, mas pensar no ‘nós’. Estamos passando por uma situação difícil como sociedade, e temos que enfrentar juntos, porque basta uma pessoa infectada para infectar várias outras”, afirma.
Incubação e testes
José Eduardo Levi, virologista da Dasa, grupo do Laboratório Exame, explica os perigos do vírus, detalhando o período que todo paciente fica sem sintomas. “Todo mundo passa por uma fase de incubação, que chega a durar cerca de cinco dias. Nesse período, a pessoa está com a doença, mas não tem sintomas. Ou seja, desde o momento em que ela foi contaminada, ela já tem vírus no trato respiratório e pode transmitir.”
Já o nível de impacto da Covid-19 no sistema do paciente varia muito. “Ele recebe a carga viral de alguém infectado, isso entra no corpo e começa a replicar nas células. O contaminado passa a ter sintomas cerca de cinco dias após a infecção, mas tem gente que permanece sempre assintomática, são pessoas que não percebem o vírus e não vão ter quadros graves, apesar de poderem transmitir para outras”, ressalta Levi. Por isso, para o especialista, o cenário preferível a ser seguido pelas autoridades de saúde é o da testagem em massa, ou seja, a realização de exames para coronavírus em grande escala, alcançando até mesmo quem não tem sintomas graves.
“Toda região que pode, que tem recursos para isso, testa mais. A gente vê que os países que realizaram mais exames em um primeiro momento foram os que tiveram o menor número de mortes proporcionalmente ao tamanho da população”, afirma. Porém, é necessário avaliar o contexto atual de cada local. “O teste massivo tem a função de fazer o isolamento de forma técnica. Ou seja, só se isola quem é positivo. A tendência, assim, é que a pessoa que está contaminada respeite mais o isolamento e evite contaminar mais gente. Mas a estratégia hoje é testar os pacientes graves, porque só temos exames suficientes para eles, que, em ordem de prioridade, são os mais importantes”, lembra o virologista.
Transmissões evitadas
Como ressaltou José Eduardo Levi, há pessoas que não vão sentir grandes efeitos do vírus, mas devem tomar cuidado para não se tornarem transmissoras. É esse o caso de Leonardo Ornelas, 27. Jovem e com boa saúde, ele foi surpreendido pelo resultado positivo do exame de coronavírus e segue à risca as recomendações para não propagar a doença. “Eu estava nos Estados Unidos e retornei em 16 de março. Pouco depois, um casal de amigos que estava comigo me avisou que os exames deles apontaram a Covid-19. Eu não tinha sintomas nenhum, mas resolvi fazer o teste para desencargo de consciência, já que ia voltar a trabalhar na semana seguinte, fazendo entregas do meu café”, lembra o empresário.
Leonardo conta que não teve febre, tosse ou dificuldade respiratória, e que havia feito um exame de sangue recentemente com resultados excelentes. O único possível sinal de que algo podia estar errado foi uma perda da sensibilidade do paladar e do olfato. “Fiquei surpreso com o resultado positivo, mesmo não tendo praticamente sintoma nenhum. O único que tive foi ficar sem sentir gosto e cheiro das coisas por pouco mais de uma semana”, explica. Após o isolamento recomendado, ele realizou um novo teste, na última semana, que apontou a recuperação da doença.
Mas, na visão do jovem, é necessário entender que a Covid-19 é perigosa mesmo quando infecta alguém saudável. “Não é uma doença que necessariamente vai levar a óbito, mas pode matar pais, avós, amigos que têm problemas de saúde. O vírus não tem cor nem cheiro, e se espalha mais rápido do que podemos imaginar. Sair de casa agora sem necessidade é um ato de egoísmo que pode prejudicar muita gente”, avalia.
Frases
“O vírus não tem cor nem cheiro, e se espalha mais rápido do que podemos imaginar. Sair de casa agora sem necessidade é um ato de egoísmo que pode prejudicar muita gente”
Leonardo Ornelas, empresário, curado da doença
“Estamos passando por uma situação difícil como sociedade, e temos que enfrentar juntos, porque basta uma pessoa infectada para infectar várias outras”
Isabela Fialho, publicitária, teve apenas sintomas fracos da Covid-19