Título: Protestos em frente ao Planalto
Autor: Braga, Juliana; Abreu, Roberta
Fonte: Correio Braziliense, 05/12/2012, Política, p. 6
Agricultores, sindicalistas e indígenas promovem manifestações. Houve tentativa de invasão ao palácio e trânsito foi afetado
A Esplanada dos Ministérios foi tomada por três protestos na terça-feira. Posicionados em frente à Praça dos Três Poderes desde às 9h, os manifestantes só deixaram o local por volta das 18h. Pela área externa do Palácio do Planalto, passaram pequenos agricultores rurais endividados pedindo o perdão dos débitos, sindicalistas que cobravam o fim do fator previdenciário e um grupo de índios reivindicando a demarcação de terras.
Segundo a Polícia Militar, cerca de 200 manifestantes dos três protestos passaram pela Esplanada ontem, sendo que o momento mais tenso ocorreu por volta das 16h, quando o grupo de sindicalistas tentou forçar a entrada no Palácio do Planalto. Quem também enfrentou problemas foram os motoristas que trafegavam entre a Esplanada e a via L4. Por volta do meio-dia, o grupo de agricultores rurais fechou a pista entre o palácio e a Praça dos Três Poderes.
Cerca de 100 agricultores vieram do Nordeste para pedir uma audiência com a presidente Dilma Rousseff. Eles reclamam do nível de endividamento por contra de empréstimos rurais. "Viemos aqui pedir que a presidente analise a questão da dívida não só pelo aspecto econômico, mas também pelo aspecto social. Esses valores são impossíveis de pagar, ainda mais para quem enfrenta um período de seca", explica o integrante da Associação dos Mutuários de Paraíba, Afonso Cartacho, ressaltando que alguns débitos ultrapassam R$ 100 mil.
Segundo ele, os valores cresceram vertiginosamente devido à fórmula usada para calcular as prestações, que incluem, além dos juros, a Taxa Referencial (TR) e a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). Os créditos foram obtidos entre o fim da década de 1980 e 2001 — quando o cálculo foi alterado — nos Bancos do Brasil e do Nordeste. É o caso de Fernando Mello, proprietário de uma fazenda de 53 hectares no município de Batalha (AL). Ele contraiu empréstimo de R$ 35 mil há oito anos e hoje deve mais de R$ 100 mil, mesmo já tendo pagado cerca de R$ 15 mil. "Eu não tenho como pagar. Meu rebanho está sendo dizimado pela seca. Minha produção se reduziu a 10% do que produzia antes da estiagem", lamentou.
Os manifestantes carregavam carcaças de gado. Segundo eles, os animais morreram vítimas da seca. Houve explosão de fogos de artifício e algumas pessoas dentro do palácio chegaram a pensar que fossem bombas caseiras. Fontes do Governo do Distrito Federal (GDF) informaram à reportagem que cerca de 20 pessoas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que estavam em uma invasão no Catetinho (leia mais na página 26) foram até a Esplanada para reforçar o protesto.
À tarde, 10 representantes do grupo foram recebidos por José Lopez Feijó, assessor especial da Secretaria-Geral, e liberaram a pista em frente ao Palácio. Ficou acertado que os agricultores vão elaborar um documento propondo uma solução para apresentar ao ministro Gilberto Carvalho hoje pela manhã. A partir daí, pretendem discutir uma solução, em parceria com os ministérios da Integração Nacional e do Desenvolvimento Agrário.
Em menor grupo, cerca de 20 índios também ocuparam o espaço em frente ao palácio para protestar. Eles pediam a demarcação de terras indígenas, especialmente em Mato Grosso do Sul, onde guaranis-kaiowás chegaram a ser despejados — decisão revista no mês passado. Os manifestantes dançaram em cantaram, mas não foram recebidos no Planalto. No entanto, lideranças indígenas, representantes de organizações não governamentais e deputados se reuniram na Comissão de Direitos Humanos da Câmara para protestar contra a proposta que transfere do Executivo para o Congresso a responsabilidade de reconhecer terras das etnias.
Tumulto na entrada O grupo de 60 pessoas da Força Sindical, liderado pelo deputado Paulo Pereira Silva (PDT-SP), pedia que fosse colocado em votação no Congresso um substitutivo ao projeto que discute o fim do fator previdenciário. Na entrada, houve empurra-empurra e as portas do prédio foram fechadas. O tumulto só acabou quando seis pessoas foram autorizadas a entrar no palácio. "Nós achamos que é um erro a presidente ficar contra o substitutivo do deputado Ademir Camilo (PSD-MG), que dá uma alternativa ao fator previdenciário", disse Paulinho.