Título: O silêncio é a arma de Renan no Senado
Autor: Valadares, João
Fonte: Correio Braziliense, 06/01/2013, Política, p. 3

Ele não fala uma palavra sequer sobre sua volta à presidência do Senado pouco mais de cinco anos depois de renunciar para evitar a cassação, mas o senador alagoano Renan Calheiros (PMDB) já deu o chamado nó de marinheiro para amarrar a vitória sem correr nenhum risco. Usa o silêncio como a maior arma. Discreto, evita ataques antes da hora. E é na sombra que calcula milimetricamente todos os passos. Montou um grupo de velhos articuladores políticos para levar recados aos mais variados partidos e oferecer contrapartidas em troca de apoio de todas as cores. Vale tudo. Desde cargos nas comissões ao colegas de bancada até a manobra aos 45 minutos do segundo tempo, na CPI do Cachoeira, para livrar a cabeça do governador de Goiás, Marconi Perillo, e conseguir a simpatia tucana. E, claro, mais votos no dia da eleição.

Nos corredores do Senado, ninguém duvida de que o homem que saiu pela porta dos fundos, depois de ser envolvido em denúncias que indicavam o pagamento de despesas pessoais por um lobista, volte a ocupar o posto mais alto da Casa com aval do governo e da oposição. Inicialmente, o Palácio do Planalto não via com bons olhos o retorno de Renan. A presidente Dilma Rousseff trabalhava para que o atual ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, fosse o sucessor do senador José Sarney (PMDB-AP). No entanto, Renan se articulou e mostrou serviço. Conseguiu, como relator da Medida Provisória nº 579, aprovar o texto que assegura a redução da tarifa de energia sem grandes atropelos.

O nome do senador Luiz Henrique (PMDB-PR) chegou a ser ventilado por um grupo de parlamentares considerado independente, formado entre outros por Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), Pedro Simon (PMDB-RS), Pedro Taques (PDT-AM) e Randolfe Rodrigues (PSol-AP). Com a derrubada do relatório da CPI do Cachoeira, de autoria do deputado federal Odair Cunha (PT-MG), o grupo se enfraqueceu e Luiz Henrique virou carta fora do baralho. O senador Randolfe Rodrigues confirma que, após o acordo entre Renan Calheiros e o PSDB, não havia mais condições de Luiz Henrique disputar a presidência. "Ele não será mais o candidato. A pressão foi grande. O acordo feito para derrubar o relatório da CPI esvaziou de vez a candidatura dele que estava sendo construída pelo nosso grupo. Eu não vou votar em Renan Calheiros e por isso coloquei meu nome para ser um anticandidato", explicou. Outra opção de "anticandidatura" é o senador Pedro Taques.

Orçamento Os movimentos de Renan Calheiros, no entanto, tiveram início bem mais cedo. Como líder da bancada do PMDB, ele optou por não trombar de frente com o novo líder do governo na Casa, Eduardo Braga (AM), responsável pela exoneração de Romero Jucá (RR) do cargo. Desta maneira, conseguiu sedimentar a relação com um dos líderes do antigo G8, grupo de oposição à cúpula peemedebista dentro da bancada. Aproveitou ainda para não deixar ao relento o sem-cargo Jucá: nomeou-o relator da Comissão Mista de Orçamento. Ele passou então a distribuir também relatorias de medidas provisórias para os descontentes e emplacou o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) na presidência da CPI do Cachoeira. Agora, o senador paraibano deve assumir a Comissão de Constituição, Cidadania e Justiça (CCJ) . Para conseguir a neutralidade na disputa de fevereiro, até o senador Roberto Requião (PR) foi enquadrado: ganhou a presidência da representação brasileira no Mercosul.

Em conversa reservada, um dos senadores responsáveis pela articulação da candidatura de Renan foi enfático. "Ele trabalha para voltar à presidência desde que teve que renunciar em 2007 e voltou em 2010. Conseguiu, de uma tacada só, conquistar o Planalto e a oposição. Tem gente que diz que ele é maquiavélico. Eu digo que tem inteligência política. Ele terá mais de 65 votos. Pode escrever."

Estrategicamente, a candidatura do alagoano só deve ser oficializada na última semana de janeiro. A eleição ocorre nos primeiros dias de fevereiro. O grupo independente reclama que o Senado vai eleger Renan Calheiros sem nenhum tipo de debate. Por isso, ainda nesta semana, os senadores Randolfe Rodrigues e Cristovam Buarque (PDT-DF) vão lançar uma pauta mínima para o Senado. "O nosso objetivo é de que, antes da eleição, ocorra pelo menos algum tipo de debate. O texto está sendo elaborado por Cristovam. Entre os principais pontos estão a definição de uma agenda do Congresso independente do Executivo, o encaminhamento de uma reforma administrativa e a divulgação ampla de todos os gastos da Casa", afirmou Randolfe.

Colaborou Paulo de Tarso Lyra

"O nosso objetivo é de que, antes da eleição, ocorra pelo menos algum tipo de debate. Entre os principais pontos está a definição de uma agenda do Congresso independente do Executivo" Randolfe Rodrigues (PSol-AP), senador

Quem é ele

Renan Calheiros, 57 anos, começou a carreira política no fim da década de 1970 ao se filiar ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Em 1978, conseguiu o primeiro cargo eletivo. Foi eleito deputado estadual por Alagoas. Com a extinção do bipartidarismo, filiou-se ao PMDB. Em 1982, forma-se em direito e consegue se eleger deputado federal. Reelegeu-se em 1986. Em 1989, filiado ao Partido da Reconstrução Nacional (PRN), Renan Calheiros assumiu a assessoria de Fernando Collor de Melo, candidato à Presidência da República. Em 1990, Renan Calheiros tornou-se líder do governo Collor no Congresso. Em 1994, elegeu-se senador. Oito anos depois, foi reeleito senador. Em 2005, Renan tornou-se presidente do Senado. Ficou no cargo até 2007. Teve que renunciar para não ser cassado diante de denúncias que apontavam que um lobista pagava suas despesas pessoais. Três anos mais tarde, o alagoano conseguiu voltar ao Senado. E agora, em 2013, deve ocupar novamente a presidência da Casa.