Título: Morte de estudante causa indignação
Autor: Tranches, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 30/12/2012, Mundo, p. 15
Ativistas paralisam o centro de Nova Délhi, em protesto contra o estupro coletivo sofrido por estudante. Seis suspeitos responderão por assassinato
Indignados com a morte da estudante de 23 anos — vítima de um estupro coletivo duas semanas atrás —, indianos marcharam ontem pelas ruas de Nova Délhi pedindo leis mais severas e a punição aos agressores sexuais. A jovem, que não teve a identidade revelada, morreu na madrugada de ontem em Cingapura (hora local). Seis suspeitos do crime cometido dentro de um ônibus, incluindo um menor e o motorista, estão presos e enfrentarão acusações de assassinato e de estupro. Indianos têm feito recorrentes manifestações para que o governo adote medidas a fim de garantir proteção às mulheres, vítimas de abusos frequentes. Ontem, eles pediram pena de morte aos que atacaram a mais recente vítima e a todos que cometem violência sexual.
A onda de protestos já dura dias, mas ganhou força com a morte da jovem e obrigou ao fechamento de trechos do centro da capital indiana. A polícia pediu calma aos manifestantes e 10 estações de metrô foram interditadas. Apesar dos esforços, pelo menos mil pessoas se reuniram no centro da cidade. A segurança foi reforçada sob o temor de uma grande manifestação de fúria.
Dezenas de estudantes da Universidade Jawaharlal Nehru, frequentada pela jovem assassinada, caminharam em silêncio até a parada de ônibus onde ela e um amigo pegaram o coletivo, em 16 de dezembro. Os manifestantes carregavam placas com frases como “Ela não está entre nós, mas sua história nos despertará”. Na tentativa de conter os ânimos, a líder política Sheila Dikshit afirmou, segundo a agência France-Presse, que passos sólidos serão adotados para proteger as mulheres. À noite, pelo menos 4 mil indianos realizaram uma vigília, carregando velas.
Após a violência sexual, a estudante e o amigo foram agredidos com uma barra de ferro e jogados nus para fora do veículo ainda em movimento. Operada três vezes no Hospital Safdarjung, na capital indiana, ao apresentar graves lesões intestinais, ela foi transferida para a cidade-estado de Cingapura. Segundo o hospital, a estudante sofreu uma “grave falência dos órgãos”. A jovem enfrentava uma infecção pulmonar e lesões cerebrais e já havia tido uma parada cardíaca.
Em Nova Délhi, o premiê indiano, Manmohan Singh, disse estar “profundamente triste” com a morte e considerou “compreensíveis” as furiosas manifestações em toda a Índia. “Já vimos as emoções e as energias que este incidente tem causado. São reações perfeitamente compreensíveis de uma Índia jovem e que, genuinamente, deseja a mudança”, declarou. Segundo informações oficiais, o número de estupros denunciados na Índia tem crescido muito nos últimos anos, rompendo aos poucos um estigma cultural que impede as vítimas de denunciarem o crime. Em 1971, foram notificados 2.487 casos. Quarenta anos mais tarde, esse número chegou a 24.206, de acordo com os dados do governo. Apenas em Nova Délhi, foram 572 casos ano passado e, neste, mais de 600. Para analistas, o caso da jovem estudante deve colocar as questões de gênero no centro da política indiana.