Título: Mais respeito, menos mortes
Autor: Bernardes, Adriana
Fonte: Correio Braziliense, 04/01/2013, Cidades, p. 19
Pela primeira vez, o Distrito Federal fica com índice de óbitos em acidentes abaixo do aceitável pela ONU. Autoridades de trânsito defendem que operações especiais, organizadas a partir de estatísticas, contribuíram para a redução dos números
O número de mortes em acidentes proporcional à frota de veículos nunca se mostrou tão baixo no Distrito Federal como em 2012. Pela primeira vez, a quantidade de vítimas ficou abaixo da meta aceitável pela Organização das Nações Unidas (ONU) para os países em desenvolvimento, de três casos para cada grupo de 10 mil veículos. Na capital do país, o índice ficou em 2,9 óbitos por 10 mil carros. O recorde histórico é atribuído à maior conscientização do motorista, principalmente em relação à proibição de dirigir alcoolizado. No último ano, houve 4.389 flagrantes, menos da metade dos 10.499 registros de 2011.
O balanço de mortos e feridos, apesar de alto, indica um dos melhores resultados dos últimos 15 anos. Entre 1º de janeiro e 31 de dezembro passado ocorreram 389 colisões, com 414 mortes (leia ilustração). O levantamento é preliminar e será atualizado até o próximo dia 31 porque, diferentemente de outras unidades da Federação, o Detran do DF contabiliza as mortes ocorridas até 30 dias após a ocorrência. “Em 50% dos casos, o óbito ocorre no local. Por isso, é importante acompanhar os sobreviventes para que tenhamos dados mais consistentes”, explica o estatístico Pedro Henrique Monteiro Moreira, da Gerência de Estatística de Trânsito do Detran. Em 2011, o órgão registrou 418 acidentes e 465 mortes.
Desde 1995, o número mais baixo de óbitos havia sido registrado em 2006: 414 casos. É preciso destacar que, desde então, houve aumento da frota e da quantidade de habilitados. Em 2006, eram 883.676 veículos e, atualmente, há 1.400.650, um aumento de 58,5%. O total de motoristas saltou de 1.111.078 para 1.420.568, ou seja, 27,8% a mais no mesmo período.
Em 2012, no entanto, houve um dos acidentes mais graves dos últimos anos no DF. Há cerca de um ano, uma tragédia marcou a vida de seis famílias. Por volta das 4h de 21 de janeiro, o carro dirigido por Expedito Cirqueira da Silva Júnior, 19 anos, capotou diversas vezes na BR-070, perto do Setor O, em Ceilândia. Os seis ocupantes do veículo, entre eles Expedito, que não tinha CNH, morreram no local. Eram todos jovens entre 16 e 19 anos.
Operações especiais
Na avaliação do gerente de Policiamento e Fiscalização do Trânsito, agente Luiz Carlos Souto Júnior, a diminuição dos números é resultado da conscientização do motorista e do trabalho conjunto entre diferentes órgãos do governo com base no mapeamento do dia, hora e local em que mais ocorrem acidentes no DF. É o que ele chama de fiscalização inteligente.
Foi também amparado no trabalho do setor de estatística que o Detran mudou o horário e as características das blitzes a fim de combater a alcoolemia ao volante. “Percebemos que os acidentes com morte ocorridos nas primeiras horas do dia não eram provocados por pessoas que estavam saindo para o trabalho e, sim, por quem esperava a fiscalização acabar e voltar para casa. Aí, montamos a Operação Rescaldo, com início as 6h, com foco nesse condutor”, exemplifica Souto.
Além disso, o último ano ficou marcado pela Operação Funil, com atuação conjunta das polícias Militar, Rodoviária Federal e Civil, do Corpo de Bombeiros, do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e do Detran. “Essa ação é repressiva e educativa. Dias antes fechamos a área e fazemos a campanha educativa. Em seguida, vem a repressão”, acrescenta o agente Souto.
O Detran também colocou em prática a Operação Último Gole. Em vez de montarem as blitzes com carros oficiais nos arredores dos bares, os agentes ficam espalhados em locais estratégicos, atentos em quem apresenta sinais de embriaguez e assume o volante. Assim que o veículo começa a se deslocar, é feito o flagrante. A estratégia teve início em abril de 2011 para driblar as mensagens sobre as barreiras encaminhadas pelas redes sociais.
Outro trabalho que apresenta resultados positivos é o da Central de Investigação e Tratamento de Acidentes (Cita) do Núcleo de Estatística. Desde 2008, o grupo percorre pontos perigosos, levanta os problemas e define medidas corretivas. “Em 2011, houve quatro atropelamentos em faixas de pedestres, todos na Avenida LJ2, em Taguatinga. A equipe descobriu que as árvores atrapalhavam a visualização das placas. Foi feita a poda e, em 2012, não houve acidente no local”, informou Francy Anne Vieira Barbosa, estatística do Detran.