Título: IPI menor não segura produção
Autor: Bancillon , Deco
Fonte: Correio Braziliense, 08/01/2013, Economia, p. 12
Nem mesmo a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para carros zero ajudou a tirar o setor automotivo do atoleiro. Em 2012, mesmo com todas as medidas anunciadas pelo governo para estimular o consumo interno, a produção de veículos no país recuou 1,9%. Foi a primeira queda em uma década, e ocorre justamente em um ano em que as vendas bateram recorde histórico, chegando a 3,8 milhões de unidades vendidas, conforme informou ontem a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Ou seja, o benefício fiscal serviu apenas para reduzir os estoques das montadoras e garantir o faturamento.
O descompasso entre o consumo acelerado e o ritmo mais fraco da produção nas fábricas é a prova de que, ao apostar todas as fichas no modelo econômico ancorado no consumo, a equipe econômica da presidente Dilma Rousseff perdeu o rumo. Responsável por 22% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial, o setor automotivo sempre foi visto pelo governo como uma área-chave para a retomada da atividade. A aposta era de que, diante das vendas maiores, as montadoras aumentariam a produção no mesmo ritmo e, com isso, os empresários seriam estimulados a desengavetarem projetos de investimentos. Mas não foi o que aconteceu.
Em 2012, diante da incerteza sobre a real velocidade da retomada, os investidores se retraíram. Ao todo, foram cinco trimestres consecutivos no vermelho da chamada Formação Bruta de Capital Fixo (FBC), taxa que mede o volume de investimentos na economia. “Consequentemente, o país foi colhendo pibinhos, ficando cada vez mais longe de colher um pibão”, criticou o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa.
Antes de o governo reduzir o IPI, as vendas diárias nas concessionárias eram da ordem de 12,4 mil unidades. Com o tributo zerado, os emplacamentos chegaram a 16 mil por dia, um aumento de 29%. Em todo o ano de 2012, a contribuição da desoneração de impostos às vendas foi de 400 mil carros, conforme a Anfavea. Sem ela, portanto, a comercialização de veículos seria 0,2% menor em 2012 do que foi em 2011. “Ainda assim, está claro que o que houve foi queima de estoques. Se a indústria quisesse, poderia ter aumentado a produção, vendendo carros mais baratos. Mas optou pela via mais fácil, que é desovar o que estava encalhado contando com a ajuda do governo”, disse Rosa.
Mesmo com a ajuda extra do IPI menor, houve demissões na indústria automobilística. Em meados do ano, após ser informada que a GM planejava fazer pesados cortes na unidade de São José dos Campos (SP), a presidente Dilma determinou que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, convocasse os executivos da montadora para que explicassem sobre os cortes. Foi preciso, na época, ameaçar cancelar os incentivos. O recado parece ter surtido efeito. Segundo a Anfavea, o emprego no setor automotivo fechou o ano passado com alta de 3,7%, com 149,9 mil trabalhadores empregados.
Barbosa minimiza maquiagem em contas O ministro interino da Fazenda, Nelson Barbosa, afirmou ontem que a manobra contábil feita pelo governo para cumprir a meta de superavit primário de 2012 não compromete a credibilidade do país. “As operações que foram feitas estavam previstas na lei orçamentária. Elas são autorizadas pela legislação vigente e utilizam o espaço que o governo tem para cumprir a meta em anos atípicos, em que a receita vem abaixo do esperado”, disse. Na semana passada, o governo realizou operações de triangulação financeira envolvendo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), a Caixa Econômica Federal e o Fundo Soberano, que engordaram a caixa do Tesouro em R$ 19,4 bilhões em dezembro, a fim de atingir a economia para o pagamento de juros da dívida. Especialistas avaliaram que o instrumento deteriora a política fiscal e mina a credibilidade da política econômica.