Título: Riqueza aprovada
Autor: Laboissiére , Mariana
Fonte: Correio Braziliense, 08/01/2013, Cidades, p. 30

Após 30 anos de batalha pela preservação de uma área de 700 mil metros quadrados, localizada no km 26 da BR-060, a 50km do Plano Piloto, o sociólogo Eugênio Giovenardi, 78 anos, proprietário das terras do Sítio das Neves, recebeu enfim a chancela do Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Distrito Federal (Ibram) para resguardar o patrimônio biológico do espaço.

No início de novembro, passados dois anos de espera, o recanto — onde brotam mais de 3 mil espécies vegetais e vivem 17 variedades de cobras e 117 de aves, além de três nascentes perenes — ganhou Certidão de Aprovação de Localização de Reserva Legal.

Na prática, o documento dado pelo órgão ambiental visa assegurar, entre outras coisas, o uso sustentável dos recursos naturais da área em, pelo menos, 20% do terreno (veja Lei ambiental). Quanto aos outros 80%, caberia a Eugênio decidir a vocação da terra, sem perder de vista, contudo, o que prevê a legislação florestal vigente para uma Área de Proteção Permanente (APP). De acordo com o Ibram, a vegetação nativa do local vem sendo conservada há anos, o que demonstra a preocupação do proprietário com a natureza.

Para Giovenardi, a concessão do certificado representa um primeiro passo. "Lucio Costa idealizou uma pequena parcela da área do DF para a urbanização. A maior fatia seria destinada à zona rural, ou seja, à proteção da natureza do Planalto Central. Seria algo como uma cortina vegetal", esclarece. "A migração e a superpopulação, entretanto, fizeram com que essa proporção começasse a se inverter", argumenta.

Autor de três livros sobre o cerrado, Eugênio, hoje aposentado, dedica até 10 horas do seu dia à escrita. Entre mangueiras e jaqueiras, versa sobre as mudanças climáticas — reflexo da ocupação desordenada e da falta de zelo do homem com o meio ambiente. "Diante das transformações no tempo, é importante criar novos sistemas sociais de adaptação transmissíveis às novas gerações, caso contrário o futuro das espécies vivas está comprometido", alerta.

Seca

O sociólogo afirma ter feito registro fotográfico de ocupações desde o km 12 até o km 30 da BR-060. "São pelo menos cinco conjuntos com algo em torno de 10 até 24 casas. Eles vão invadindo todo o espaço das nascentes", pontua. "Nessa mesma área, há 15 poços artesianos que pegam águas profundas. Dependendo do consumo e do controle, a tendência é que, pouco a pouco, as reservas sequem", avisa. Segundo ele, das 10 mil nascentes existentes na época da Missão Cruls, apenas um terço continua existindo.

Desde meados de 1980, no Sítio das Neves é vedada a prática do reflorestamento de espécies exóticas, o corte de espécies arbóreas e a caça de animais. O documento do GDF veio para reforçar a necessidade dessa conduta. "Toda espécie aqui é nativa", diz ele, acrescentando: "Nossa principal preocupação é com a falta d"água". Por isso, criou um sistema de barragens feitas de materiais naturais, sem utilização de ferro e cimento, como mostrou o Correio em 2010 (veja fac-símile). A iniciativa possibilita a captação da água da chuva, fortalece as nascentes, e o excedente transborda de uma barragem a outra até alcançar córregos e ribeirões.

"Esse trabalho ainda é pequeno, pois é fruto da iniciativa privada", explica o sociólogo. "Mas a ANA (Agência Nacional das Águas) instalou, recentemente, um pluviômetro no sítio. Então, hoje, é possível termos o controle diário do volume de precipitação. Podemos saber coisas como o risco de não termos água suficiente para abastecer os córregos", exemplifica.

Em dezembro último, mês considerado chuvoso, o Sítio das Neves registrou 18 dias de seca absoluta — algo incomum na região. A falta d" água, por sua vez, trouxe desequilíbrio a espécies frutíferas, como bacupari, mangaba e mertilas.

A escassa fiscalização por parte dos órgãos ambientais é uma das queixas de Eugênio. "A minha ideia é evitar que áreas como a minha sejam ocupadas de forma primitiva, onde o solo é desnudado e as águas das chuvas não têm local adequado para penetrar e recarregar os aquíferos. Embora venha denunciando isso sempre, falta efetivo para fazer o controle eficiente no território", lamenta.

Na contramão dos retrocessos, Eugênio cita dois nomes como expoentes da preservação no mundo: o ecologista Pentti Linkola, que luta na Finlândia pela manutenção de áreas em vias da destruição, e a atriz norte-americana Angelina Jolie, que comprou duas ilhas para resguardar o ecossistema da região.

Memória

Antiga carvoaria

O Sítio das Neves nem sempre foi um santuário da fauna e da flora no DF, mas sim uma área severamente castigada. Por uma década, foi usado como carvoaria pelo antigo dono. Somente em 1973, Giovenardi e a mulher, uma jornalista finlandesa, compraram a porção de terra. Na época, investiram no sonho rural e logo começaram a criar gado. Foram precisos cinco anos para que Eugênio percebesse que o lugar estava fadado a se transformar em um deserto. Nesse momento, ele decidiu investir na natureza, abrindo mão do gado e mantendo apenas animais de menor porte. Outra iniciativa foi estudar o cerrado.