Título: Resgate sangrento
Autor: Walker, Gabriela
Fonte: Correio Braziliense, 18/01/2013, Mundo, p. 16

Argélia bombardeia complexo de exploração de gás tomado por extremistas islâmicos. Pelo menos 49 pessoas morreram

O governo da Argélia cumpriu a promessa de não negociar com terroristas. Na tentativa de colocar um ponto final na crise que envolveu o sequestro de 41 estrangeiros, o Exército argelino bombardeou o complexo de exploração de gás, perto da cidade de In Amenas, no sudeste do país, onde centenas de reféns eram mantidos desde a manhã de quarta-feira. A resposta aos rebeldes islâmicos, integrantes dos "Signatários de Sangue" — uma facção da rede Al-Qaeda — terminou com a morte de diversos reféns mortos. Uma fonte islâmica citada pela agência mauritana Nouakchott Information (ANI) declarou que 34 morreram, além de 15 rebeldes.

Além dos estrangeiros, 600 argelinos foram detidos pelos sequestradores. Até o fechamento desta edição, os soldados haviam controlado apenas parte das instalações do complexo de gás — operado pela companhia britânica BP, pela norueguesa Statoil e pela argelina Sonatrach. No entanto, acreditava-se que rebeldes e reféns ainda pudessem estar escondidos no local. Tóquio anunciou, na manhã de hoje (hora local), que três funcionários japoneses estão em local seguro, mas 14 seguem desaparecidos. Os insurgentes, que agiram em represália à intervenção da França no norte do Mali, exigiam a libertação de presos muçulmanos e a saída das tropas do território africano.

"Um número importante de reféns foi libertado e, infelizmente, há mortos e feridos", declarou o ministro argelino das Comunicações, Mohamed Said, que não confirmou os números exatos. Antes da operação de resgate, 15 estrangeiros e 30 argelinos conseguiram fugir, segundo o canal de tevê argelino Ennahar. De acordo com um porta-voz do grupo radical, os reféns foram mortos em ataques do próprio governo, no momento em que os extremistas os transportavam para um local mais seguro, informou a ANI. "Quando o grupo terrorista insistiu em deixar a instalação, levando os reféns estrangeiros com eles para Estados vizinhos, a ordem para as unidades especiais era atacar a posição dos rebeldes", explicou o Said, em conversa com a agência estatal APS. De acordo com a Reuters, seis estrangeiros e oito rebeldes morreram nesse ataque.

Segundo Jose Flavio Sombra Saraiva, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a reação da Argélia foi legítima, por ser considerada uma tentativa de defesa de seu território. "A guerra começou e ela segue regras próprias. As reações nesses momentos de conflito, sobretudo no início, são respostas aos interesses nacionais", explica.

"O que ocorre na Argélia justifica ainda mais a decisão que tomei, em nome da França, de ajudar o Mali, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e a pedido do presidente desse país", disse o presidente francês, François Hollande, em discurso a líderes empresariais. David Cameron, primeiro-ministro britânico, reclamou por não ter sido informado da operação argelina e cancelou um pronunciamento que faria na Holanda. "É uma situação muito perigosa, muito incerta, muito instável", disse.

Por sua vez, o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, telefonou para membros do governo da Argélia para manifestar extrema preocupação e pedir a suspensão das ações. A Casa Branca também expressou preocupação. "Obviamente, estamos preocupados com a informação sobre a perda de vidas humanas", disse Jay Carney, porta-voz do presidente Barack Obama. A secretária de Estado, Hillary Clinton, afirmou que os EUA farão o possível para combater o terror. Washington não decidiu sobre o envio de tropas ao Mali.

Reforços

Os primeiros soldados da força organizada pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) para ajudar as tropas malinesas chegaram a Bamaco, a capital do Mali. Cem militares togoleses esperam os reforços da Nigéria e do Chade, que estão a caminho. A Missão Internacional de Apoio ao Mali (Misma) será liderada por um nigeriano, Shehu Abdulkadir, e terá 3 mil homens procedentes de nove países vizinhos.