Título: Droga para câncer em falta
Autor: Chaib, Julia
Fonte: Correio Braziliense, 19/01/2013, Brasil, p. 8

Único fabricante no país do remédio para leucemia linfoide aguda encerra a produção. Hospitais se preocupam com a escassez. Ministério pede soluções a outros laboratórios

Com apenas 27 frascos restantes do medicamento Asparaginase, usado no tratamento de leucemia linfoide aguda (LLA), médicos do Hospital da Criança de Brasília José de Alencar (HCB) temem a escassez. A demanda mensal do centro — que tem atualmente 37 pacientes com LLA — é de 40 frascos. Diante da decisão do único fabricante da droga no Brasil, o laboratório Bagó, de encerrar a produção, a incerteza no local aumentou. Para médicos, o baixo valor e a pouca demanda do medicamento são motivos que fizeram o laboratório desistir de produzi-lo.

No HCB, por enquanto, o problema ainda não está na compra do remédio, mas na demora da entrega. Em outubro do ano passado, o hospital comprou 300 frascos. “Era para eles nos fornecerem os remédios em dezembro. Mas só recebemos 30, e agora em janeiro. Essa quantidade não é suficiente nem para um mês”, lamenta a oncologista e hematologista pediátrica Isis Magalhães. “No fim do ano, tivemos de entrar em contato com um instituto do Rio Grande do Norte, que tinha o remédio no estoque, para nos encaminhar”, explicou.

De acordo com Isis, o laboratório afirma que a demora acontece porque eles estão diminuindo a quantidade de produção do remédio, mas, todas as vezes que são procurados, garantem que entregarão na semana seguinte, o que não procede. Por meio de nota, o Bagó informou que até meados de junho nenhum médico ou instituto terá problemas para receber ou comprar o Asparaginase.

A falta do medicamento no mercado diminui as chances de cura de pacientes diagnosticados com LLA, como Jesica da Silva Gama, 15 anos. Ela descobriu o câncer em 2011 e, agora, já está na fase em que é acompanhada por médicos para garantir que a doença não retorne. “Minha filha está bem, mas graças ao tratamento. Temo que outras crianças com leucemia não tenham acesso ao remédio. Isso é muito grave e preocupante”, diz a mãe de Jesica, Juliana da Silva de Andrade.

O presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Anderson Silvestrini, diz que o uso do remédio aumenta de 40 a 70% as chances de cura de LLA. “É uma droga extremamente importante no tratamento da doença e de utilidade pública. Mas a demanda é pequena, de 500 a 1.000 pacientes por ano. Além do fornecimento ser reduzido, é um remédio barato, por isso, não há muito interesse industrial em fabricá-la”, justifica.

De acordo com o Ministério da Saúde, um frasco do Asparaginase, que tem o nome comercial Elspar, custa R$ 80. Em 2008, caso semelhante aconteceu quando o laboratório Roche parou de produzir o Benzonidazol, usado para o tratamento da doença de Chagas, alegando que não havia valor de mercado. Na situação, a pasta centralizou a produção do remédio, por meio de uma parceria entre um laboratório público e um privado.

No caso do Bagó, o ministério informou que, na segunda-feira, pedirá que laboratórios (públicos e privados) apresentem propostas de produção e fornecimento ao Sistema Único de Saúde (SUS) do medicamento Asparaginase. Uma alternativa do governo federal é promover a importação do medicamento em caráter emergencial, sem a necessidade de passar pelo registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Segundo o fabricante, a droga deixou de ser produzida por problemas técnicos. Entretanto, o laboratório afirmou, por meio de nota, que fabricará o medicamento com outra marca. “O outro remédio certamente será mais caro e menos acessível. O problema com medicamentos oncológicos é tema de um grupo de estudos do Instituto Nacional do Câncer (Inca). É preciso que o governo se posicione definitivamente para evitar que outras drogas faltem”, avalia Silvestrini. “Falta responsabilidade social das empresas. Tem de pensar mais no paciente do que no lucro”, reclama a hematologista Isis Magalhães.

Administração O Asparaginase é usado no tratamento de LLA e alguns tipos de linfoma em adultos e crianças. A administração do remédio ocorre no início da doença e até três meses depois. O medicamento pode ser utilizado depois que o paciente já está curado, na fase de manutenção, com o acompanhamento médico para evitar que a doença volte. Segundo a Abrace, organização não governamental que auxilia crianças com câncer, há 154 pessoas no Brasil com cadastros ativos diagnosticadas com L.L.A.