Título: Sequestro teve a mão de canadense
Autor: Walker, Gabriela
Fonte: Correio Braziliense, 22/01/2013, Mundo, p. 17

O primeiro-ministro da Argélia, Abdelmalek Sellal, confirmou ontem a participação de um canadense no sequestro que deixou dezenas de mortos no campo de Tigantourine, no sudeste do país. “Ele estava coordenando o ataque”, disse em referência ao extremista identificado apenas como Chedad, que foi morto por soldados do Exército argelino. A imprensa internacional noticiou que dois cidadãos do Canadá estavam entre os radicais. O governo do país ocidental apenas afirmou que busca mais informações sobre possíveis cidadãos envolvidos no ataque.

O premiê britânico, David Cameron, falou ao Parlamento sobre a situação do norte da África e voltou a negar o envio de tropas para a região. No entanto, prometeu apoio de inteligência. “Vamos contribuir com ativos de inteligência e contraterrorismo para um esforço internacional, com oobjetivo de encontrar e desmantelar a rede que planejou e ordenou o ataque brutal em In Amenas”, assegurou Cameron.

O desfecho do sequestro, uma das maiores crises envolvendo reféns dos últimos anos, ocorreu sem a certeza sobre o total de mortes no ataque reivindicado pela Al-Qaeda. Durante seu pronunciamento, o primeiro-ministro argelino Abdelmalek Sellal divulgou ontem um novo balanço: 37 estrangeiros, um argelino e 29 extremistas mortos. “Muitos dos reféns foram assassinados com um tiro na cabeça”, relatou, reforçando a ideia de execução das vítimas. No sábado, um comunicado oficial confirmou a morte de 23 reféns e 32 rebeldes e, no domingo, de acordo com o canal de televisão Ennahar e o jornal El Watan, ambos argelinos, cerca de 25 corpos foram encontrados no complexo de Tigantourine. Em meio a incertezas, o premiê ressaltou que o balanço ainda é provisório.

Os estrangeiros confirmados entre os mortos eram cidadãos do Reino Unido, Filipinas, Noruega, Estados Unidos, Romênia, Japão e França, informaram os respectivos governos. Cinco funcionários estrangeiros ainda estão desaparecidos. “Trinta e dois terroristas vieram do norte do Mali”, assegurou o primeiro-ministro. Segundo ele, argelinos, tunisianos, egípcios, nigerianos e mauritanos também formavam o grupo radical, liderado por Mohamed el-Amine Benchenab, argelino morto nos ataques. Ao menos três sequestradores foram capturados vivos.

A complexidade da operação liderada pela Al-Qaeda e a facilidade com que os rebeldes entraram no campo de gás levaram as autoridades a suspeitar da ajuda de funcionários e ex-funcionários na ação terrorista. “Entre 700 argelinos, tenho certeza de que eles conseguiram encontrar uns dois que concordaram em cooperar. Isso sempre acontece”, disse um alto funcionário do governo argelino à Reuters. Os terroristas classificaram a operação na Argélia como uma represália à intervenção francesa no Mali, onde os grupos islâmicos atuam para tomar o poder. Especialistas acreditam, ainda, que o plano de invasão tenha sido arquitetado meses antes da chegada francesa ao país africano, mas não descartam a possibilidade de a operação ter sido desencadeada pela presença ocidental na região.

Em um comunicado, a Al-Qaeda ameaçou realizar novos atentados, caso os soldados estrangeiros não se retirem do Mali. “Nós prometemos a todos os países que participaram da campanha contra a região de Azawad que nós organizaremos mais operações, se eles não reverterem sua decisão”, afirmou o texto publicado pela agência mauritana Nouakchott. O Azawad é uma região reivindicada por separatistas tuaregues que ocupa a parte norte no Mali. O conflito envolvendo os islamistas ganhou força desde o golpe de Estado que derrubou o presidente Amadou Toumani Touré, em março de 2012. Além do Movimento Nacional de Libertação do Azawad (MNLA), lutam no país os grupos Ansar Dine, Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (Aqmi) e Jihad no Oeste Africano (Mujao), que querem a implantação de um governo religioso que siga as regras islâmicas da sharia.

Cidades recapturadas

Militares franceses e malineses chegaram ontem a Diabali e Duentza, após a fuga dos rebeldes islâmicos que dominavam as duas cidades. Mais de 2,1 mil franceses já estão em solo africano e mil homens vindos de países vizinhos reforçam a intervenção. Quase seis mil militares da Comunidade Econômica de Estados da África do Oeste (Cedeao) e do Chad são esperados no Mali. Ontem, a União Europeia propôs uma reunião com representantes da União Africana, da Cedeao e da ONU para que a situação do país seja acompanhada por analistas internacionais. O encontro deve acontecer em 5 de fevereiro, em Bruxelas. No dia 29 deste mês, os membros da Cedeao devem se reunir em Addis Abeba, na Etiópia, para discutir os custos financeiros da operação militar. Até o momento, não está claro quem vai bancar a intervenção no Mali que, segundo a instituição africana, deve girar em torno de US$ 500 milhões.