Título: Cúpula termina sem um avanço concreto
Autor: Hessel, Rosana
Fonte: Correio Braziliense, 28/01/2013, Economia, p. B13
Incertezas sobre a situação econômica enfraquecem negociações entre a União Europeia e grupo de países latino-americanos
A primeira reunião de cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) com a União Europeia (UE) foi encerrada ontem, em Santiago do Chile, sem avanços concretos. Apesar de os líderes se comprometerem a fortalecer o diálogo bilateral e ampliar a cooperação e os investimentos entre os blocos, o esperado acordo de livre-comércio da UE com o Mercosul ainda é visto como muito remoto diante do cenário de instabilidade econômica e política na Europa.
"Reafirmamos nosso compromisso de adotar políticas que promovam o comércio e o investimento entre países da Celac e da UE", é um dos 48 pontos da "Declaração de Santiago", assinada pelos líderes e divulgada ontem. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, fez um apelo pela abertura comercial e pela segurança dos investimentos. Para o professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília Creomar de Souza, o compromisso é positivo, apesar de os avanços terem sido mínimos. "É parte do teatro diplomático demonstrar confiança nesse ambiente de incertezas", explicou.
O desafio será garantir que o diálogo e as negociações avancem, enquanto a UE está sofrendo novos golpes. O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, disse que poderá convocar um plebiscito para decidir sobre a permanência no bloco, em 2017, caso se reeleja em 2015. "Uma possível saída da Grã-Bretanha lança dúvidas em relação às parcerias de longo prazo da UE", explicou o professor. "Não adianta vontade política se existem limitações técnicas", emendou, citando o protecionismo como maior entrave tanto do lado europeu quanto do brasileiro e sul-americano.
Ao mesmo tempo, os participantes do Fórum Econômico Mundial, encerrado ontem, em Davos, na Suíça, não conseguiram chegar a uma conclusão sobre quando a crise europeia será superada. O presidente do banco suíço UBS, Axel Weber, destacou as divergências dos participantes do fórum sobre a continuidade ou não dos riscos. "O sentimento é que o pior ficou para trás, mas o humor beirava a complacência", afirmou.
As projeções de expansão da América Latina também não são muito positivas, mesmo após as trocas comerciais com a UE terem crescido 31,5% desde 2007, somando US$ 278,1 bilhões em 2011. Neste fim de semana, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) informou em Santiago que reduziu a previsão de crescimento da região neste ano. A instituição espera que o bloco avance de 3,5% a 4%, abaixo dos 4,2% estimados em agosto de 2012.
Apesar de tudo, o presidente chileno, Sebastián Piñera, encerrou cúpula Celac-UE demonstrando otimismo e pedindo união. "Se metade do mundo está em recessão, a outra parte não poderá dar os passos para o seu desenvolvimento", disse. A presidente Dilma Rousseff interrompeu sua agenda em Santiago e voltou para o Brasil ainda pela manhã, indo direto para Santa Maria (RS), local da tragédia que matou centenas de pessoas.