Título: Um passo inicial
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Fonte: Correio Braziliense, 29/01/2013, Mundo, p. 20
Congressistas republicanos e democratas tentam impulsionar projeto bipartidário de reforma da política migratória
Um grupo de senadores republicanos e democratas deixou as divergências políticas de lado e anunciou um projeto em comum para a reforma migratória, uma das prioridades do segundo mandato do governo de Barack Obama (leia o quadro). Estima-se que 11 milhões de ilegais vivam nos Estados Unidos em busca do sonho americano e possam ser beneficiados, caso o projeto seja aprovado. O ponto de partida é o aumento da segurança nas fronteiras. O texto defende o uso de drones (aviões não-tripulados) para fiscalizar e prevenir entradas irregulares no país. Ao mesmo tempo, garante cidadania a uma parcela de estrangeiros irregulares. Hoje, o presidente Barack Obama deve apresentar suas ideias e expectativas sobre o tema, em Las Vegas. “Não há desculpa para não agir ou adiar”, defendeu Obama na última sexta-feira, em uma reunião com legisladores de origem hispânica.
A proposta dos senadores da chamada “gangue dos oito” foi recebida de modo frio por outros parlamentares e deve enfrentar forte oposição do Congresso. O líder republicano no Senado, Mitch McConnell, disse que a lei é muito importante para ser escrita dentro de um quarto. John McCain, do mesmo partido, alertou para a perda do eleitorado latino. “Olhem para as últimas eleições. Olhem para as últimas eleições. Nós estamos perdendo dramaticamente o voto hispânico, que deveríamos pensar ser nosso, por uma série de razões, e nós temos que entender o porquê disso”, declarou. A intenção do pequeno grupo bipartidário era oferecer um plano abrangente e debater todos os temas sobre a imigração de uma única vez, e não desmembrar as decisões em projetos independentes. “Nós estamos vivendo há praticamente 25 anos sem uma declaração clara sobre a política de imigração. Isso é inaceitável nesta nação de imigrantes”, declarou o democrata Dick Durbin ao programa Fox News Sunday.
O projeto busca estimular uma imigração seletiva, atraindo para os Estados Unidos estudiosos e profissionais de destaque, capazes de promover avanços científicos e econômicos. Ao mesmo tempo, estipula a liberação da entrada de mão de obra pouco qualificada em momentos nos quais a economia precisa de reforços para preencher vagas. A fiscalização das fronteiras, reforçada nos últimos anos, deve receber tecnologia para evitar a entrada de imigrantes ilegais. Um sistema de controle de vistos permitirá o acompanhamento dos imigrantes. Os empresários que contratarem trabalhadores não-regularizados terão que pagar multa e responder perante a Justiça.
O maior desafio da proposta será evitar a chegada de estrangeiros em busca de uma vida melhor na maior potência do mundo. “Enquanto a ideia do Eldorado americano existir, o país terá que conviver com esse problema. Os traficantes e atravessadores inovam nas estratégias, e o governo se obriga a utilizar contramanobras”, destaca Paulo Kramer, consultor e professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB).
A pressão popular que cobra de Obama ações rápidas sobre o assunto também pesa para os republicanos, enfraquecidos nas urnas, sem o apoio dos imigrantes. Nas eleições de novembro do ano passado, a comunidade latina — uma parcela de 10% do eleitorado — votou em massa em Obama, que conquistou 70% do apoio do grupo. De olho nessa comunidade influente, os republicanos estão dispostos a defender a reforma, para conquistar aqueles que sonham com o green card. “Deixamos claro que qualquer lei que não inclua um caminho para a cidadania não terá nosso apoio”, indicou o democrata Rubén Hinojosa, presidente do caucus hispânico no Congresso.
Na gangue dos oito — formada pelos democratas Charles E. Schumer, Bob Menendez, Dick Durbin e Michael Bennet e pelos republicanos Marco Rubio, Lindsey Graham, John McCain e Jeff Flake —, o espírito é de otimismo. “Estamos tentando trabalhar com algumas questões muito difíceis, mas estamos comprometidos com uma abordagem abrangente para finalmente termos neste país uma lei de imigração com a qual podemos viver “, afirmou o Dick Durbin. “Temos um longo caminho a percorrer, mas este plano bipartidário é um grande avanço”, defendeu Schumer, em coletiva de imprensa.
Nós estamos vivendo há praticamente 25 anos sem uma declaração clara sobre a política de imigração. Isso é inaceitável nesta nação de imigrantes” Dick Durbin, senador democrata
Veja as últimas eleições. Estamos perdendo dramaticamente o voto latino, que achamos que deveria ser nosso” John McCain, senador republicano
A proposta Conheça os princípios assinados por governistas e opositores para mudar a política migratória no país.
» Estabelecer um caminho “duro, justo e prático” para imigrantes ilegais que já estejam nos Estados Unidos, o que está condicionado à proteção das fronteiras e ao combate do extrapolamento dos vistos.
» Desenvolver um sistema que garanta a prosperidade econômica do país e atraia os melhores e mais inteligentes do mundo para os Estados Unidos.
» Criar um sistema “difícil, justo, eficaz e obrigatório” de verificação de empregos, que responsabilize os empregadores que conscientemente contratarem trabalhadores sem documentos e que dificulte que imigrantes falsifiquem documentos para conseguirem trabalhos.
» Permitir a contratação de imigrantes apenas caso fique comprovado que não foi possível recrutar um americano e que a contratação de um imigrante não deixará os locais desempregados.
11 milhões Total de imigrantes ilegais que vivem atualmente nos Estados Unidos.