Título: O retorno de Renan
Autor: Lyra, Paulo de Tarso; Almeida, Amanda
Fonte: Correio Braziliense, 02/02/2013, Política, p. 2
Com o apoio do Planalto, parlamentar alagoano recebe 71% dos votos dos colegas e vai comandar o Senado pelos próximos dois anos. Um dos primeiros embates é a votação dos 3 mil vetos presidenciais pendentes, como os dos royalties do petróleo
O senador do PMDB, Renan Calheiros (AL), é o novo presidente do Senado, eleito com 56 votos, para o biênio 2013/2014, contra 18 recebidos pelo senador Pedro Taques (PDT-MT). Apesar de o sufrágio ter sido secreto, dois senadores votaram nulo e outros dois, em branco. Apenas 78 dos 81 senadores estiveram presentes no plenário: João Ribeiro (PR-TO), Luiz Henrique (PMDB-SC) e Humberto Costa (PT-PE) não estavam em Brasília. Renan, que esperou até o último momento para confirmar a candidatura e articulou intensamente nos últimos dois anos para retornar ao cargo que deixou em 2007, prometeu uma gestão mais democrática e participativa.
Dentro da pauta do peemedebista, dois assuntos que poderão causar desconforto no Palácio do Planalto, principal fiador da vitória de Renan: a elaboração de um novo rito para tramitação de medidas provisórias e a votação, com possível derrota para o governo, dos mais de 3 mil vetos presidenciais pendentes no Congresso. “Não acredito na política do fim do mundo. Não é o fim do mundo o Congresso derrubar vetos, que não mais se acumularão como mercadorias. Vamos criar em breve um mecanismo para limpar a pauta”, disse Renan.
Esses dois temas, inclusive, caminharão juntos na próxima terça-feira, data prevista para a votação do orçamento de 2013. Por falta de acordo entre governo e oposição, a peça orçamentária foi transferida de dezembro para 5 de fevereiro. Antes, DEM, PSDB e PPS cobram do presidente do Congresso, Renan Calheiros, a análise dos mais de 3 mil vetos presidenciais com potencial de prejuízo de quase R$ 10 bilhões para os cofres públicos.
Ao discursar antes da eleição, Renan comentou a oratória de outros senadores e disse que a ética é dever de todos. “Alguns aqui falaram sobre ética e, seria até injusto com esse Senado, que aprovou celeremente, como nunca tão rapidamente outra matéria, a Lei da Ficha Limpa, demonstrando que esse é compromisso de todos nós. Eu queria lembrar que a ética não é objetivo em si mesmo. O objetivo em si mesmo é o Brasil, é o interesse nacional. A ética é meio, não é fim. A ética é dever de todos nós.”
Outro trabalho para Renan será restaurar a união no plenário. Mesmo com menos de 20 votos, o movimento que escolheu Pedro Taques como candidato dos dissidentes teve grande repercussão, sobretudo na opinião pública. Em seu discurso, o senador pedetista admitia que “é como um perdedor que ocupo hoje esta tribuna, o titular da perda anunciada, do que não acontecerá”.
Taques distribuiu críticas aos aliados de Renan, especialmente a Fernando Collor (PTB-AL). “A ética que proclamo é aquela que quase todos os brasileiros se orgulham de cultivar, senador Collor”, afirmou Taques. Lembrou ainda que a candidatura dele representava os quase 300 mil brasileiros que assinaram a petição on-line “Ficha Limpa no Senado: Renan não”, promovida pelo portal internacional Avaaz. “Os senadores ouvem esse silêncio? É o silêncio dos covardes”, afirmou ele, diante de um plenário estático e incomodado.
Oposição Renan e, especialmente o ex-presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), trabalharão em conjunto nestes primeiros meses. Sarney já alertou ao grupo que não vale a pena, neste momento, comprar uma briga com o plenário da Casa, muito menos com a oposição. Durante a reunião da bancada do PMDB na quinta-feira que definiu a candidatura de Renan, o senador Lobão Filho (PMDB-RN) defendeu que os aliados do futuro presidente “atropelassem” os tucanos e apresentassem um nome para disputar com o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) a indicação para a primeira-secretaria. “Não é momento para isso”, alertou Sarney, alterando os rumos das conversas.
A estratégia de parceria com o plenário foi ratificada durante almoço no gabinete da presidência do Senado, logo após a confirmação da vitória de Renan. O PMDB sabe que boa parte dos votos que Renan arregimentou em plenário deve-se mais ao respeito ao critério da proporcionalidade do que à simpatia pessoal pelo presidente eleito. Por isso, não seria prudente, neste momento, abrir uma linha de atrito com a ala derrotada na disputa de ontem.
Da mesma forma, apesar do desconforto explícito com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que denunciou Renan ao STF por peculato, falsidade ideológica e falsificação de documentos, uma semana antes da eleição para a presidência da Casa, ficou acertado que manifestações públicas contra o procurador serão evitadas. Exceção feita ao senador Fernando Collor, que tem pendências pessoais com Gurgel. “Ele é um prevaricador e chantagista, sem condições morais de denunciar o presidente do Senado por qualquer coisa”, discursou Collor, na tribuna.
A presidente Dilma Rousseff telefonou para Renan para cumprimentá-lo após a vitória. No Planalto, a sensação era de alívio, pois o governo temia uma votação mais apertada.
“O objetivo em si mesmo é o Brasil, é o interesse nacional. A ética é meio, não é fim. A ética é dever de todos nós” Renan Calheiros (PMDB-AL), novo presidente do Senado
Análise da notícia Desafio no STF
Denise Rothenburg O presidente Renan Calheiros estreia no cargo de olho na máxima de José Ortega y Gasset: “O homem é o homem e sua circunstância”. Ontem, recebeu de seus pares o apoio que precisa para trabalhar, ou seja, as circunstâncias políticas internas foram dadas pela Casa. Nunca é demais lembrar que, há cinco anos, Renan enfrentou três processos de cassação. Foi absolvido em todos eles pelo plenário, inclusive no que se refere ao caso que chega agora ao Supremo Tribunal Federal. Daí, o fato de muitos senadores se referirem à denúncia como “rebarba” daqueles tempos. Resta o STF, hoje o maior desafio de Renan. Ali, estão as circunstâncias externas, ainda desconhecidas, porque dependerão de como os ministros do Supremo vão reagir ao pedido do procurador-geral Roberto Gurgel. Ontem, Renan demonstrou ter altivez para encarar mais essa circunstância. A sorte está lançada. Façam suas apostas.