Título: Mas é muita coincidência...
Autor: Dinardo, Ana Carolina; Ribas, Sílvio
Fonte: Correio Braziliense, 02/02/2013, Economia, p. 13

Valor do litro da gasolina comum no Distrito Federal varia apenas 1% contra 48% em São Paulo, devido à falta de concorrência entre os postos

Os consumidores do Distrito Federal não têm muita opção quando o assunto é abastecer o carro. A falta de concorrência entre os postos obriga os brasilienses a pagarem caro pelo combustível. Uma pesquisa feita pelo Correio comprovou que, entre o valor mais caro e o mais barato cobrados pela gasolina comum na capital do país, a variação é de apenas 1%, enquanto, em São Paulo, chega a 48%. No caso da gasolina aditivada e do diesel, a diferença chega a 7,7% e 11%, respectivamente.

Nos 24 postos visitados, foi possível verificar que os valores, com raras exceções, são os mesmos. Pela gasolina comum, os estabelecimentos estão cobrando, em grande maioria, R$ 2,99, com alta de 6,6% em relação ao praticado na última terça-feira (R$ 2,85), quando a Petrobras anunciou o reajuste nas refinarias. O preço da aditivada, por sua vez, vai de R$ 3,03 a R$ 3,19 — elevação de até 12% depois da divulgação feita pelo governo. No caso do diesel, é possível pagar entre R$ 2,27 e R$ 2,52, com correção máxima de 10%.

A falta de concorrência frustra os consumidores. O procurador José Augusto Cordeiro, 31 anos, disse que os valores praticados na capital do país são abusivos: “A impressão que se tem é de que os postos combinam os preços. E os donos dos estabelecimentos se aproveitam da realidade de Brasília, em que o carro é necessário, por causa das grandes distâncias e do transporte público deficiente”, afirmou. Na avaliação do corretor de imóveis Paulo Vargas, 28, dado o que se vê nas ruas, os donos dos postos fazem cartel. “É um absurdo que isso aconteça nas barbas do governo e ninguém faça nada. Variação de apenas 1% no preço da gasolina comum é o mais claro reflexo de falta de concorrência”, lamentou.

Segundo José Carlos Ulhôa Fonseca, presidente do Sindicombustíveis, que representa os postos de combustíveis no DF, a aparente coincidência de preços reflete, ironicamente, a concorrência no mercado local, “concentrado em três ou quatro marcas”. “Com qualidade elevada em quase todo o varejo, margens de lucro apertadas e uma vigilância permanente entre todos concorrentes, a tendência natural é de convergência dos preços”, afirmou.

Escalada pelo governo, para fiscalizar eventuais abusos dos postos, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) ainda não conseguiu apurar as distorções já percebidas nas ruas.