O globo, n. 31753, 14/07/2020. País, p. 6
Ministério da Defesa vai acionar PGR contra declaração de Gilmar
Leandro Prazeres
Daniel Gullino
Gustavo Maia
14/07/2020
Ao comentar gestão da pandemia pelo governo, que tem militar na Saúde, ministro do STF disse que Exército se associa a “genocídio”
O Ministério da Defesa rebateu as críticas feitas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, que, no último sábado, disse que o Exército se associou a um “genocídio”, em alusão à condução do governo Bolsonaro frente à pandemia da Covid-19. Em nota, a Defesa classificou a declaração do ministro como “leviana” e disse que vai enviar uma representação contra Gilmar à Procuradoria-Geral da República (PGR). O ministro não se pronunciou sobre a reação do governo.
No sábado, Gilmar criticou a atuação do governo federal na pandemia e os militares:
—Não é aceitável que se tenha esse vazio no Ministério da Saúde. Pode até se dizer: a estra té gia é tirar o protagonismo do governo federal,é atribuir a responsabilidade a estados e municípios. Se for essa a intenção é preciso se fazer alguma coisa. Isso é ruim,é péssimo para a imagem das Forças Armadas. É preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio, não é razoável. Não é razoável para o Brasil. É preciso pôr fima isso.
Por meio de nota divulgada ontem, o Ministério da Defesa repudiou a frase de Gilmar e destacou que o comentário causou indignação.
“Comentários dessa natureza, completamente afastados dos fatos, causam indignação. Trata-se de uma acusação grave, além de infundada, irresponsável e sobretudo leviana. O ataque gratuito a instituições de Estado não fortalece a democracia”, aponta um trecho da nota.
“Informamos que o MD (Ministério da Defesa) encaminhará representação ao Procurador-Geral da República (PGR) para a adoção das medidas cabíveis”, destaca outro trecho da nota.
A pessoas próximas, Gilmar disse que recebeu com tranquilidade a notícia de que será acionado na PGR. De acordo com a colunista Bela Megale, o ministro afirmou a interlocutores que as Forças Armadas e integrantes do governo se incomodaram com suas declarações, porque “bateu em uma perna quebrada” da gestão Bolsonaro.
A nota do ministério foi assinada pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e pelos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.
Também ontem, o vicepresidente Hamilton Mourão afirmou que Gilmar “não foi feliz” em sua comparação.
— O ministro Gilmar Mendes ele não foi feliz. Vou usar uma linguagem dojo godepo lo. Ele cruzou alinhada bola. Querer comparar com genocídio, ofa todas mortes ocorridas aquino Brasil na pandemia, atribui ressa culpa ao Exército. Ele forçou uma barra e agora está criando um incidente com o Ministério da Defesa —disse o vice-presidente.
No início da noite, Mourão sugeriu que o ministro peça desculpas:
— Quer fazer uma crítica ao ministro interino da Saúde, ele faz. Agora, não tem que misturar alhos com bugalhos nem usar o termo que ele utilizou. Eu acho que seria uma boa prática dele ele reconsiderar e pedir desculpas pelo termo empregado.
Já o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, publicou em sua conta no Twitter que apoia a nota divulgada pela Defesa e classificou o comentário de Gilmar como “injusta agressão sofrida pelo Exército Brasileiro”.