Correio braziliense, n. 20905, 18/08/2020. Mundo, p. 12

 

Largada à Casa Branca

Rodrigo Craveiro 

18/08/2020

 

 

A corrida rumo ao Salão Oval da Casa Branca começou, oficialmente, ontem. No primeiro dia da Convenção Nacional Democrata que reforçará a unidade em torno da chapa formada por Joe Biden e pela senadora Kamala Harris, os opositores de Donald Trump celebraram o apoio de Miles Taylor, ex-chefe de gabinete do Departamento de Segurança Interna durante o governo do republicano, e as mais recentes pesquisas de opinião pública. Na abertura do evento, em Milwaukee (estado de Wisconsin), Taylor classificou de “aterrorizante” cada semana de trabalho ao lado de Trump. “Ele foi uma das autoridades mais desfocadas e indisciplinadas que já encontrei.”

Por sua vez, a ex-primeira-dama Michelle Obama — principal estrela da noite — chamou Biden de “um homem profundamente decente, guiado pela fé”. “Ele foi um vice-presidente formidável, sabe como recuperar a economia e liderar o nosso país”, afirmou Michelle. “Biden confia na ciência, fará planos inteligentes e gerenciará uma boa equipe. Ele governará como alguém que viveu uma vida que o resto de nós possa reconhecer”, acrescentou. Na reta final da campanha, Biden foca-se nos eleitores mais jovens. Ontem, ele conversou, por meio do aplicativo Zoom, com a famosa rapper americana Cardi B. “Eu só quero que Trump vá embora”, disse a artista, que tem 72,9 milhões de seguidores no Instagram, durante a conversa.

Enquanto as atenções voltavam-se para a convenção democrata em formato virtual, Trump aproveitava para fazer uma turnê de campanha justamente no estado de Wisconsin. “A única forma de perdermos essa eleição é se ela for fraudada”, alertou, em comício na cidade de Oshkosh.  O presidente republicano também visitou Mankato, no Minnesota. O magnata precisará correr contra o tempo. A 77 dias das eleições de 3 de novembro, novas pesquisas nacionais apontam uma vantagem significativa, embora ligeiramente reduzida, de Biden. Em média, o democrata mantém-se a frente de Trump entre oito e nove pontos percentuais. No mês passado, as sondagens mostravam uma diferença de dois dígitos. De acordo com a pesquisa TV CNN/SSRS, 50% dos eleitores registrados votariam em Biden, enquanto 46%, em Trump. Entre  os 72% dos eleitores que se dizem “extremamente ou muito entusiasmados” com as eleições, a vantagem de Biden sobre Trump sobe para 53% a 46%.

Outra sondagem, feita pelo jornal The Washington Post e pela TV ABC News, indica que Biden tem a preferência de 53% dos eleitores, enquanto Trump conta com o apoio de 41%. “Veremos a margem específica entre Biden e Trump oscilar para cima e para baixo durante os próximos quase três meses de pesquisas. As sondagens nacionais não significam muito em um sistema que utiliza os resultados das eleições em nível estadual, por meio do Colégio Eleitoral”, para determinar o vencedor”, explicou ao Correio Kathleen Dolan, cientista política da Universidade de Wisconsin-Milwaukee.

Por sua vez, Thomas Holbrook — professor de governo na mesma universidade — disse à reportagem que a mudança nos resultados das pesquisas é tão leve que poderiam representar uma margem de erro. “Em outras palavras, prefiro olhar para os agregadores de pesquisa, os quais consideram os resultados de todas as sondagens”, comentou.

Voto à distância

Os democratas prosseguem com a ofensiva contra o chamado “complô republicano” para comprometer o voto à distância, em que as cédulas eleitorais são enviadas pelo sistema postal. Um grupo de procuradores-gerais de vários estados prepara uma ação legal contra o governo Trump ante os cortes no Serviço Postal dos Estados Unidos (USPS). A intenção é resguardar “o direito dos americanos de votar pelo correio”. Letitia James, procuradora-geral de Nova York e líder da iniciativa, afirmou que “o presidente priva os eleitores de seus direitos”. No Senado, Mitch McConnell — líder da maioria republicana — distanciou-se de Trump ao afirmar, ontem, que “o serviço postal vai ficar bem”. “Vamos garantir que a capacidade de funcionamento durante a eleição não seja prejudicada. Não compartilho das preocupações mencionadas pelo presidente”, declarou. Trump advertiu que um aumento na votação à distância pode levar à fraude eleitoral disseminada.

Dolan sublinha que a votação pelo sistema postal nos EUA é segura e tem sido usada há anos por alguns estados. “Quase nunca houve fraude envolvida nesses procedimentos. O voto à distância tornou-se comum no país, e a pandemia do novo coronavírus tem acelerado essa tendência. Alguns estados que não usavam a votação pelos correios antes terão de fazer alguns ajustes para acomodar o aumento da carga de trabalho, mas haverá tempo até a eleição”, disse. Para Holbrook, Trump tentará convencer muitos norte-americanos a comparecerem às sessões eleitorais. “Ironicamente, as declarações do presidente sobre o assunto podem contribuir para sua derrota, pois entrega aos democratas uma questão importante, a qual eles podem usar para retratar Trump como um presidente corrupto.”

» Pontos de vista

Por Thomas Holbrook

Tiro pela culatra

“Suspeito que o principal objetivo do presidente Trump seja criar dúvidas sobre o resultado da eleição. Talvez para salvar a própria pele, em caso de derrota. Talvez para preparar terreno para contestações judiciais em estados com resultados apertados. Se Trump perder por ampla margem, ninguém se importará com o que ele disse sobre o voto à distância.”

Professor de governo da Universidade de Wisconsin-Milwaukee

Por Kathleen Dolan

Estratégia conveniente

“O presidente Trump tenta desperar temores sobre o voto à distância, argumentando que esse sistema levará à fraude eleitoral. Está claro que ele planeja desafiar os resultados em estados-chave, se parecer que perdeu. Trump provavelmente recorrerá aos tribunais e contestará os resultados e os procedimentos, em uma tentativa de fazer parecer que a eleição foi roubada dele.”

Cientista política da Universidade de Wisconsin-Milwaukee