Título: BC diz que está desconfortável
Autor: Nunes, Vicente
Fonte: Correio Braziliense, 08/02/2013, Economia, p. 9

Autoridade monetária ressalta a preocupação com o elevado custo de vida. Mercado aposta em alta dos juros neste ano

O Banco Central vai monitorar com lupa os indicadores de inflação. Apesar do tom otimista no discurso, o diretor de Política Econômica da instituição, Carlos Hamilton, reconheceu que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro, de 0,86%, não está em um nível considerado confortável. A taxa foi a maior para todos os meses desde abril de 2005. “A inflação preocupa, não estamos confortáveis e estamos monitorando todos os indicadores”, afirmou.

O desconforto do BC se estendeu ao Palácio do Planalto. Assessores próximos da presidente Dilma Rousseff acenderam o sinal de alerta, sobretudo porque a forte alta do custo de vida está punindo os consumidores de mais baixa renda — os alimentos, por exemplo, acumularam alta de 11 nos últimos 12 meses. Apesar de ser política do governo aceitar um pouco mais de inflação para estimular o crescimento econômico, há o temor de que as remarcações exageradas possam corroer parte da elevada popularidade da presidente.

Os analistas não descartam, inclusive, a possibilidade de o BC ser obrigado a subir a taxa básica de juros (Selic) ainda em 2013. Questionado pelo Correio sobre tal possibilidade, Hamilton limitou-se a responder: “Estamos monitorando. O que posso assegurar é que não estamos confortáveis (com os atuais índices de preço)”. O mercado reagiu, embalado pela mesma declaração feita pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, ao jornal O Globo. Nos contratos futuros de juros, as taxas dispararam. Aqueles com vencimento em janeiro de 2014 passaram de 7,35% para 7,44% ao ano. Nos de janeiro de 2015, as apostas saltaram de 8,09% para 8,19% e, nos de janeiro de 2017, de 9,02% para 9,09%.

Segundo Hamilton, apesar do desconforto do BC, em todos os cenários traçados pela instituição, a inflação vai desacelerar na segunda metade do ano. Para entender o que a autoridade monetária está afirmando, é preciso dividir o quadro inflacionário de 2013 em dois. No primeiro, de janeiro a junho, o custo de vida ficará alto, resistente, refletindo uma série de fatores, como a disparada dos preços dos alimentos, o aumento do imposto do cigarro (10%), que respondeu por 0,09 ponto percentual do IPCA de janeiro, e a volta do IPI de carros, eletrodomésticos e móveis.

Na outra parte do ano, prevalecerão as notícias mais positivas, como a entrada da safra recorde de grãos, que, se não derrubar, pelo menos manterá comportado o preço dos alimentos. Além disso, a oferta mais moderada de crédito evitará o consumo exacerbado. E mais: como está havendo queda no valor dos imóveis (no Distrito Federal, houve recuo de quase 6% desde junho de 2012), os aluguéis tendem a se acomodar. Outros pontos a favor serão a menor valorização do dólar ante o real, o comportamento mais benigno da economia internacional e a desoneração de impostos, inclusive, da cesta básica. Mesmo assim, o IPCA anual deverá ficar em entre 5,6% e 6%.

» Dólar desaba

O dólar fechou ontem cotado a R$ 1,972, com queda de 0,82%. Para o economista Sílvio Campos Neto, da Tendências, isso demonstra a expectativa de que o Banco Central venha a atuar com maior intensidade no mercado para segurar a inflação no país.