Título: Obama no ataque
Autor: Tranches, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 30/01/2013, Mundo, p. 18

Barack Obama invocou ontem a história dos pioneiros ingleses que chegaram à América para construir os Estados Unidos para pedir aos congressistas de ambos os partidos urgência no avanço de uma reforma das leis de imigração. Discursando em uma escola em Las Vegas, no estado de Nevada, o presidente expôs as prioridades do plano da Casa Branca, que se assemelham ao projeto exposto na véspera por um grupo bipartidário do Senado. Determinado a cumprir uma promessa feira na campanha de 2008, Obama foi cauteloso ao reforçar o consenso entre democratas e republicanos sobre o tema, um dos únicos onde há convergência em Washington. O líder ameaçou, porém, enviar uma proposta de iniciativa própria, caso o Congresso falhe em agir em tempo hábil. “Estou aqui hoje porque chegou a hora de uma reforma imigratória de consenso.”

O presidente defendeu mudanças baseadas em três pontos principais: abrir o caminho da cidadania para os 11,5 milhões de imigrantes em situação irregular; exercer com mais inteligência a repressão, inclusive com a vigilância nas fronteiras; e melhorar os mecanismos de imigração legal. As medidas se assemelham às apresentadas pelos senadores do grupo que ficou conhecido como “gangue dos oito”, que reúne simpatizantes de uma solução para os milhões de estrangeiros que vivem nos EUA sem documentação.

Democratas e republicanos tratam a reforma migratória com prioridade desde que a eleição presidencial de 2012 mostrou a importância do voto latino. Enquanto os governistas tentam preservar o apoio de mais de 70% desse eleitorado, fundamental para a reeleição de Obama, a oposição busca se reaproximar da minoria que mais cresce no país. Os republicanos, porém, tropeçam em divergências internas. Em reação ao discurso de ontem, o presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, alertou Obama de que levar o discurso “para a esquerda” poderia pôr em risco a aprovação da reforma pela maioria de oposição na Casa. “Qualquer solução deve ser bipartidária.”

A fala sinaliza que as negociações no Congresso não serão simples e poderão enfrentar um bloqueio. No Senado, controlado pelos democratas, há por enquanto o acordo que Obama fez questão de ressaltar em Las Vegas. “A boa notícia é que, pela primeira vez em muitos anos, republicanos e democratas parecem estar preparados para enfrentar juntos esse problema”, ressaltou. Se tentar transformar a medida em proposta unilateral, segundo analistas, Obama poderá perder a situação favorável no Senado.

Mesmo assim, o presidente parece determinado a agir. Em seu discurso, ele ameaçou apresentar uma legislação própria caso o Congresso demore em avançar uma reforma ampla, que beneficie principalmente os latinos. Segundo Obama, o sistema imigratório atual não funciona. “A esperança que vemos naqueles que chegam aqui, vindos de todos os cantos do globo, tem sido uma de nossas maiores forças”, disse o presidente, arrancando aplausos. A escolha de Nevada não foi casual: nesse estado, ele obteve apoio maciço do eleitorado hispânico. O presidente destacou a importância da imigração para a história dos EUA e lembrou a chegada, ao longo dos anos, de milhares de estrangeiros que ajudaram a construir o país. “Todos eles vieram para cá sabendo que o que faz de alguém um americano não é apenas o sangue ou o nascimento, mas a fidelidade aos nossos princípios fundadores.”

A última tentativa de obter uma reforma migratória integral, proposta também por um grupo bipartidário, falhou em 2007, durante o governo do republicano George W. Bush. No primeiro mandado de Obama, foram aprovadas algumas iniciativas, como a que suspende a deportação de jovens que chegaram na infância, estudam ou se alistam no Exército. O governo democrata anunciou ainda que, a partir de março, reduzirá o tempo de espera de ilegais casados com um cidadão americano e que tenham filhos no país. Atualmente, eles precisam permanecer no exterior até um ano para poder voltar a entrar legalmente em território americano. Por outro lado, sob a administração Obama, foram alcançados números inéditos em deportações de imigrantes em situação ilegal: em 2012, o total chegou a 409.849. Segundo a agência de Imigração e Alfândegas (ICE), 55% tinham antecedentes criminais.

11,5 milhões Total de estrangeiros em situação irregular em 2011, segundo estimativa oficial

86% Participação dos mexicanos e centro-americanos no total de estrangeiros ilegais

13,1 milhões População de imigrantes legais no país, em 2011

"Chegou a hora de uma reforma imigratória de consenso”

"A boa notícia é que, pela primeira vez em muitos anos, republicanos e democratas parecem estar preparados para enfrentar juntos este problema” Barack Obama, presidente dos EUA