Título: Volume alto, valor baixo
Autor: Pinto, Paulo Silva
Fonte: Correio Braziliense, 11/02/2013, Economia, p. 8
Vendas do país se concentram nos produtos primários, que criam poucos empregos. E o desempenho do Brasil na balança, apesar de ainda ser positivo, tende para o outro lado »
O ano mal começou, e o Brasil já sinaliza um desempenho ainda pior que o do ano passado no comércio exterior. O saldo da balança em 2012, de US$ 19 bilhões, foi o menor em mais de uma década. E, em janeiro último, o resultado foi o recorde negativo de toda a série histórica — iniciada em 1994 —para um período de 30 dias: US$ 4,03 bilhões.
O que mais preocupa, porém, não são os números globais, mas a qualidade do que é exportado. O Brasil depende cada vez mais de commodities agrícolas e minerais, com valor agregado muito inferior ao do que sai da indústria. "Não podemos ficar o resto da vida abastecendo o mundo de produtos primários", alerta o presidente da Associação de Exportadores Brasileiros (AEB), José Augusto de Castro.
A entidade chama a atenção para o fato de que praticamente um terço das exportações brasileiras no ano passado se concentrou em três produtos: soja, minério de ferro e petróleo. Para alguns países, como a China, a pauta se limita quase exclusivamente às commodities, produtos a granel, de baixo nível de elaboração e que podem ser fornecidos por diversos países mantendo as mesmas características.
Dependência
Uma demonstração do peso desses itens é o fato de a diferença entre o saldo comercial de 2011 e o de 2012 ser totalmente explicada pela desvalorização de um único produto: o minério de ferro. A quantidade embarcada foi praticamente a mesma, mas o preço despencou US$ 10 bilhões — o superavit de toda a balança caiu, em número arredondado, US$ 11 bilhões. Assim, além de gerar menos empregos, os produtos primários tornam o país vulnerável a oscilações internacionais de preços.
No caso dos manufaturados, o Brasil tinha superavit até 2006. Depois disso, a balança foi para o outro lado. E não parou de se inclinar. O deficit de US$ 9 bilhões em 2007 se transformou em US$ 94 bilhões no ano passado (veja quadro). A venda desse tipo de produto caiu 1,9% entre 2011 e 2012. Isso representa retração menor que as exportações totais, que tiveram recuo de 5%. Mas, ainda assim, a situação de alguns itens dessa lista é preocupante. A comercialização de automóveis, por exemplo, registrou redução de 13,6%. Esse item saltou do primeiro lugar da pauta para o quarto — o líder agora são os óleos combustíveis.
O problema não se limita à dificuldade de exportar. As empresas brasileiras perdem mercado — fora e internamente — para fornecedores de outros locais. "O consumo dos brasileiros aumentou consideravelmente nos últimos anos, mas isso foi direcionado ao exterior", ressalta o gerente executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria, Flávio Castelo Branco. O economista explica que a indústria nacional enfrenta sérios problemas de competitividade, sobretudo devido aos tributos, que, além de elevados, embutem custos extras de mão de obra pela alta complexidade burocrática.
Reforma tributária
O vice-presidente do Banco Mundial, Otaviano Canuto, vai na mesma linha. Segundo ele, em vez de recorrer a desonerações pontuais e setorizadas, o governo deveria usar o espaço fiscal que tem para promover uma reforma tributária que reduza os custos para todas as empresas, sem exceção. Ele, assim como Flávio Castelo Branco, chama a atenção para os sinais antagônicos que têm partido do governo quanto às regras da economia, o que traz insegurança ao horizonte dos empresários e tende a cancelar decisões de investimentos.
Os obstáculos que aumentam os custos das empresas — ou diminuem as perspectivas de crescimento da economia — são consenso entre os analistas ao falar da falta de investimentos e de competitividade. "Se o Brasil tivesse uma boa infraestrutura, um sistema tributário normal, menos burocracia e custo de financiamento mais baixo, ninguém estaria reclamando", afirma José Augusto Castro.
Sem promoção
O presidente da AEB ressalva, contudo, que o problema vai além do ambiente econômico: falta promoção comercial de produtos brasileiros em países mais ricos, sobretudo nos Estados Unidos. "As pessoas do governo não gostam que eu diga, mas isso é consequência de uma opção ideológica", critica. A presença no mercado norte-americano, ele explica, é importante não só pelas vendas ali, mas por seu efeito disseminador. "É a maior vitrine do mundo." Fábricas brasileiras que vendiam muito para a nação da América do Norte, hoje, estão fora de lá, principalmente dos setores de calçados e móveis, entre outros.
As exportações de manufaturados brasileiros se concentram atualmente na América Latina. O problema é que importadores como o Chile, o Peru e a Colômbia assinaram tratados de livre comércio com outros países, que tendem a abocanhar fatias maiores de seus mercados. "Nós estamos ficando isolados no Mercosul", chama a atenção Castro. E nem aí, como se sabe, o país está livre de problemas. A Argentina, o principal destino dos manufaturados "made in Brazil", enfrenta dificuldades econômicas e vem recorrendo a barreiras sobre os produtos nacionais. Uma das demonstrações de vulnerabilidade das companhias brasileiras, afirma Castro, é o fato de 80% das exportações de produtos industrializados serem realizadas por multinacionais instaladas no Brasil. Esse comércio, no âmbito da própria empresa, depende de suas conveniências estratégicas, que podem mudar rapidamente.