Título: Continuem rezando por mim, pede o Papa
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 18/02/2013, Mundo, p. 12

MILHARES DE PESSOAS ACOMPANHAM A CELEBRAÇÃO DOMINICAL NA PRAÇA DE SÃO PEDRO. BENDO XVI FALA EM RENOVAÇÃO DA IGREJA

Uma multidão estimada em 50 mil pessoas pelo Vaticano — autoridades locais falaram em 100 mil — acompanhou ontem a missa dominical na Praça de São Pedro, a penúltima celebrada por Bento XVI, que abdicará do pontificado no próximo dia 28. O papa pediu orações para ele e seu sucessor e, abordando o tema da quaresma, importante período de reflexão para os católicos, defendeu a renovação do espírito. "A Igreja, que é mãe e mestra, convoca todos os seus membros a se renovarem no espírito, a se reorientarem decididamente em direção a Deus, renegando o orgulho e o egoísmo para viver no amor", pregou.

Quando surgiu na janela de seus aposentos no palácio apostólico, às 12h locais (8h em Brasília), Bento XVI ouviu os fiéis gritarem seu nome por vários minutos, além de manifestações como "Viva o papa". Faixas e cartazes escritos em várias línguas apresentavam mensagens como "Sentiremos sua falta" e "Obrigado".

O pontífice também se dirigiu aos fiéis em diferentes idiomas. "Em momentos decisivos da vida, ou, em uma análise mais próxima, em todos os momentos da vida, estamos em encruzilhadas: queremos seguir o "eu" ou Deus? O interesse individual ou o bem verdadeiro, que é realmente bom?", disse, em italiano. Na única vez em que mencionou claramente sua decisão de deixar o comando da Santa Sé, optou pelo espanhol: "Eu imploro que vocês continuem rezando por mim e pelo próximo papa".

Alguns dos fiéis que foram à Praça de São Pedro ontem ainda tentavam entender por que o religioso decidiu abdicar do trono de Pedro. "Parece que não havia motivo. João Paulo II também estava cansado e não renunciou", disse, à agência France-Presse, Myriam, uma panamenha de 60 anos. A mulher, que passa férias com a família no Vaticano, disse esperar que o próximo papa "seja mais bonachão e tenha mais carisma". "Ficamos surpresos, mas podemos ver Deus nessa decisão. Só não somos capazes de entender", afirmou, também à France-Presse, Lara Cecília, outra fiel que acompanhou a celebração do Ângelus.

Segundo o Vaticano, no começo da noite, o pontífice se retirou para realizar exercícios espirituais privados por ocasião da Quaresma, que também foi tema de uma mensagem deixada pelo papa no Twitter: "A quaresma é um tempo favorável para redescobrirmos a fé em Deus como base da nossa vida e da vida da Igreja".

Sucessão

O irmão do sumo sacerdote, Georg Ratzinger, 89 anos, afirmou ontem ao jornal espanhol ABC que Bento XVI busca "ter mais calma para sua velhice" com a renúncia. "Com a idade, as forças vão se perdendo. É uma decisão benéfica para a Igreja", disse. "Além disso, teve que enfrentar tarefas difíceis para as quais fez tudo o que pôde. É uma decisão que simplesmente ocorreu. É o curso da vida e ninguém se livra dele."

No próxima semana, Bento XVI fará sua última celebração dominical, já que, na quinta-feira seguinte (28), deverá tomar a decisão anunciada, dando início assim à chamada sede vacante, período em que a Igreja fica sem um líder e o conclave para eleger o novo papa é realizado. No último sábado, o Vaticano informou que a escolha do novo pontífice pode começar antes de 15 de março se houver quórum de cardeais suficiente em Roma.

Cinco brasileiros devem participar da reunião secreta e poderão tanto votar como serem eleitos pontífice: o arcebispo emérito de São Paulo, dom Claudio Hummes; o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Raymundo Damasceno; o prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, no Vaticano, dom João Braz de Aviz; o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer; e o arcebispo de Salvador, dom Geraldo Majella Agnelo.