Título: Polícia defende parcerias
Autor: Sakkis, Ariadne
Fonte: Correio Braziliense, 19/02/2013, Cidades, p. 24
Os principais representantes da segurança pública do DF avaliam que o combate ao tráfico e ao consumo de entorpecentes depende do trabalho em conjunto das demais secretarias ligadas aos direitos básicos. Nesse sentido, GDF organiza rede de apoio ao usuário de crack» ARIADNE SAKKIS
Combater o tráfico de drogas requer mais do que esforço policial. Além da preparação para enfrentar essa modalidade de crime, os próprios comandos da Secretária de Segurança Pública e das polícias Civil e Militar defendem uma maior integração com outros setores do governo e da sociedade para combater o comércio e o uso de entorpecentes. "Precisamos fazer uma parceria com a população e ver as drogas como um problema de saúde e de educação", acredita o comandante-geral da Polícia Militar, Suamy Santana (leia entrevista).
O secretário de Segurança Pública, Sandro Avelar, afirma que a pasta vem reunindo esforços para atuar em conjunto com as secretarias de Justiça, de Ordem Pública e de Saúde, já que há componentes do problema do tráfico que não se resolvem por meio da atuação policial. "O DF está montando uma rede de apoio ao usuário de crack e, quando isso for implementado, conseguiremos tirar das ruas pessoas que hoje são dependentes, mas que amanhã poderão ser potenciais criminosas", afirma Avelar.
Pela legislação atual, um usuário não pode ficar preso. Conduzido a uma delegacia, ele assina um termo de compromisso e pode ser encaminhado para tratamento especial. Como essa rede de assistência, hoje, tem muitas deficiências, a maioria dos consumidores de entorpecentes, em especial, de crack, volta às ruas.
O titular da Secretaria de Segurança Pública descarta a possibilidade de o aumento do número de flagrantes representar a intensificação do tráfico. Segundo ele, no ano passado, a capital federal bateu recordes em número de apreensão de entorpecentes. Foram 2, 2 mil quilos de maconha e 500kg de cocaína retirados das ruas. "Isso mostra que as forças de segurança têm trabalhado muito", avalia Avelar. Segundo ele, um levantamento feito com a Justiça mostrou que 97% dos presos por comércio de drogas acabaram condenados.
Estratégia Desde o ano passado, a Secretaria de Segurança Pública dividiu o Distrito Federal em quatro zonas e nomeou um delegado regional para cada região. A Área Integrada de Segurança Pública (AISP) Metropolitana, que compreende Brasília, é de responsabilidade do delegado Anderson Espíndola. Cada região tem metas de segurança a cumprir. Por isso, o aumento das estatísticas de prisões por tráfico é visto como um dado positivo pelo coordenador da área. "Mais gente está sendo abordada nas ruas. E só há registro de ocorrência de tráfico quando alguém é preso. Isso quer dizer mais repressão por parte do Estado", acredita.
Ele também destaca a importância da parceria com outros órgãos governamentais para contornar a situação de violência na zona central. "Muitos traficantes estão em situação de rua. Mas como você separa o morador de rua, o flanelinha e o traficante? E cada vez mais usuários se tornam traficantes. Acabam vendendo a droga para manter o vício. Por isso, é importante um trabalho coordenado, que já começou a acontecer", explica.
Três perguntas para...
Coronel Suamy Santana, comandante-geral da Polícia Militar
A que o senhor atribui o aumento no número de ocorrências de tráfico de droga? Desde abril, tivemos um crescimento de produtividade na atuação da PM. Ampliamos o número de policiais nas ruas, fizemos alterações na carga horária e reformas administrativas. Isso resultou em mais flagrantes, tanto de tráfico de drogas quanto de crimes ligados a essa modalidade, como porte ilegal de armas e homicídio.
O que dificulta a repressão ao narcotráfico? Muitas vezes, fazemos um trabalho de enxugar gelo, porque prendemos os traficantes e em pouco tempo eles estão nas ruas novamente. São os pequenos traficantes, aqueles que chamamos de avião, que atuam na zona central de Brasília. Eles não carregam grandes quantidades de droga, a maioria já tem diversas passagens pela polícia e, muitas vezes, são menores de idade. Por isso, recebem tratamento diferenciado. As normas precisam ser revistas urgentemente.
Trata-se de uma batalha perdida? Não. Temos uma sociedade que busca a paz social, legitimamente. Mas o crime existe desde sempre, faz parte da natureza humana. O que podemos fazer é tentar controlá-lo, por meio da parceria com a população e com massivos investimentos em cultura e educação. Temos a questão das drogas como um problema de saúde pública. Essa geração de jovens de 13, 14 anos que já se envolveu no crime, sinto dizer, já perdemos.