Título: Virada na Europa
Autor: Queiroz, Silvio
Fonte: Correio Braziliense, 07/05/2012, Mundo, p. 12

O socialista François Hollande derrota Sarkozy e marca encontro com a chanceler alemã para reclamar ajustes no pacto de austeridade negociado para enfrentar a crise na Zona do Euro

O recado das urnas na França, com a vitória clara do socialista François Hollande sobre o presidente direitista Nicolas Sarkozy, por 52% a 48% dos votos, foi traduzido pelo próprio recém-eleito quando se dirigiu aos entusiasmados simpatizantes em seu reduto eleitoral de Tulle, no centro-sul do país. Já depois da 0h30 de hoje (19h30 em Brasília), o presidente eleito foi recebido em Paris por dezenas de milhares de eufóricos militantes que festejavam, na emblemática Praça da Bastilha, o retorno da esquerda ao Palácio do Eliseu, depois de 17 anos.

"Hoje mesmo, responsável pelo futuro do nosso país, estou ciente de que toda a Europa nos observa", discursou Hollande em Tulle, cerca de meia depois de ter ouvido Sarkozy reconhecer publicamente a derrota. Pela segunda vez na 5ª República, proclamada em 1958, um chefe de Estado perdeu a batalha pela reeleição, como em 1981, quando François Mitterrand bateu o centro-direitista Valérie Giscard D"Estaing e tornou-se o primeiro socialista a presidir a França. "Na hora em que o resultado foi anunciado, tive a certeza de que em diversos países europeus houve um sentimento de alívio e de esperança, de que, por fim, a austeridade pode não ser mais uma fatalidade."

Não por acaso, ainda a caminho do aeroporto em que embarcou para a capital, Hollande teve seu primeiro ato semioficial: recebeu um telefonema da chanceler (chefe de governo) alemã, Angela Merkel, que esteve entre os primeiros governantes estrangeiros a cumprimentar o presidente eleito e convidou-o para visitar Berlim assim que tomar posse, até o próximo dia 15. "A Alemanha está pronta a trabalhar com a França em um pacto pelo crescimento da Europa, o que passa por reformas estruturais", tinha dito pouco antes o ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle. Também o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a quem Sarkozy se referia como "meu chapa", felicitou o novo parceiro e convidou-o a encontrá-lo na Casa Branca.

Favorito destacado para vencer desde a campanha do primeiro turno, Hollande não fez segredo sobre a prioridade que dará ao tema e anunciou que levaria prontamente ao parceiro preferencial da França a proposta de uma revisão no tratado fiscal costurado por Merkel e Sarkozy para enfrentar a crise financeira na Zona do Euro. Tampouco a chanceler alemã fez mistério sobre sua resistência a remodelar o pacote de austeridade, imposto pela dupla a parceiros em dificuldades, como Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. O presidente francês, que teve na disputa o apoio explícito da colega, uniu-se ontem aos governantes de 11 países europeus apeados do governo desde que a crise se instalou no bloco.

"Neste 6 de maio, os franceses escolheram a mudança e me levaram à presidência da República, estou orgulhoso por ter sido capaz de devolver a eles a esperança", disse o vitorioso em seu reduto eleitoral. "Estamos prontos para agir e tomar decisões, a mudança acontecerá logo", completou, fiel ao lema da campanha, "a mudança é agora". O presidente eleito reafirmou o compromisso com uma cartilha de medidas de emergência para os primeiros 100 dias de mandato — começando por uma redução de 30% no salário do presidente e dos ministros. A receita inclui ainda um congelamento dos preços dos combustíveis por três meses e um reajuste de 25% no subsídio concedido às famílias por criança escolarizada.

Nas entrevistas que concedeu na reta final, quando as pesquisas indicavam uma tendência consistente para a sua vitória, Hollande deixou claro que os contornos definitivos de seu primeiro governo, em especial a escolha do primeiro-ministro, serão determinados pelas eleições legislativas de junho. "Vai depender do resultado e da necessidade de contar com o apoio do parlamento", antecipou. "Será alguém que conheça bem os deputados e também precisa ser alguém com quem eu tenha boas relações — é melhor assim." Entre os nomes cotados, o mais próximo desse perfil parece ser o atual líder do Partido Socialista na Assembleia Nacional, Jean-Marc Ayrault.

Entusiasmo no Planalto A presidente Dilma Rousseff não demorou a enviar "efusivos cumprimentos" a François Hollande e disse estar "segura de que poderemos compartilhar posições comuns nos foros internacionais, entre eles o G-20", para "inverter as políticas recessivas, ainda hoje predominantes". Em nota, Dilma afirma que seguiu "com grande interesse suas propostas de vencer a crise que enfrenta a Europa com responsabilidade macroeconômica, mas, sobretudo, com políticas que favoreçam o crescimento, o emprego, a inclusão e a justiça social". Depois de convidar o presidente eleito a vir para a conferência Rio+20, em junho, ela finalizou: "Receba, prezado presidente, meu apreço e simpatia".

Por fim, a austeridade pode não ser mais uma fatalidade (para a Europa) François Hollande, presidente eleito da França

Eu me preparo para voltar a ser um francês como todos os franceses, um cidadão como todos os demais" Nicolas Sarkozy, atual presidente e candidato derrotado à reeleição