Título: Sexo, corrupção e chantagem
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 22/02/2013, Mundo, p. 14

Jornal La Repubblica divulga que papa Bento XVI decidiu entregar o cargo em dezembro, ao receber dossiê sobre a Igreja Católica. Denúncia envolve rede de encontros homossexuais

Assim que recebeu o documento com as conclusões sobre o escândalo VatiLeaks das mãos dos cardeais Julián Herranz, Jozef Tomko e Salvatore De Giorgi, Bento XVI o guardou no cofre de seu apartamento, no Palácio Apostólico. Horas depois, o pontífice admitiu: “Eu estou velho e o que fiz já foi o bastante”. A decisão do papa de renunciar ao trono de São Pedro teria sido tomada ainda naquele 17 de dezembro de 2012, depois que Joseph Ratzinger se deparou com o conteúdo devastador das 300 páginas. De acordo com o jornal La Repubblica, o dossiê tratava de “influência imprópria” dentro da Igreja, exercida na forma de lobbies, alguns de “natureza mundana”.

“Tudo gira em torno da observância do sexto e do sétimo mandamentos”, afirma o diário, ao citar uma fonte próxima aos cardeais e ao se referir a duas leis do chamado Decálogo: “Não pecar contra a castidade” e “Não furtar, não roubar e não levantar falso testemunho”. Segundo o documento, facções externas chantagearam membros do clero que faziam parte de uma rede de homossexuais dentro do Vaticano. As conclusões da investigação serão entregues ao próximo papa que, sustenta o La Repubblica, “deverá ser mais forte, jovem e santo o bastante para enfrentar o trabalho que o aguarda”.

A reação inicial do Vaticano contribuiu para lançar incertezas à polêmica. “Não esperem comentários, negações ou confirmações sobre este assunto”, declarou o porta-voz, padre Federico Lombardi. Segundo o La Repubblica, o relatório traria revelações sobre lutas pelo poder no seio da Igreja, malversações econômicas e relações homossexuais. E faria menção a uma “rede transversal unida pela orientação sexual”, capaz de exercer a “influência imprópria” citada pelos três cardeais.

A edição de ontem do jornal italiano lembra o caso de Angelo Balducci, ex-presidente do Conselho Nacional Italiano de Obras Públicas. Em 2010, durante apuração sobre corrupção, a polícia descobriu que Balducci integrava uma organização de agenciamento de homossexuais, que atendia membros do coral e seminaristas. O inquérito aponta que Balducci se comunicava com frequência com o nigeriano Chinedu Thiomas Eheim, da Reverenda Capela Musical da Sacrossanta Basílica Papal de São Pedro, suspeito de oferecer serviços sexuais. “Só te falo que ele tem dois metros de altura, pesa 97kg, tem 33 anos e é completamente ativo”, disse o africano a Balducci, de acordo com uma conversa interceptada. Os encontros homossexuais teriam ocorrido em uma casa nos arredores de Roma, na sauna Quarta Miglo, em uma salão de beleza dentro da Santa Sé e na república universitária de Trasone — hoje residência de Marco Simeon, 33 anos, diretor de TV Rai Vaticano.

Segredo

Ex-aluno de Bento XVI, o padre norte-americano Joseph Fessio lembrou ao Correio que o relatório elaborado pelos cardeais Herranz, Tomko e DiGiorgi está sob segredo pontifício. “Os únicos que conhecem seu conteúdo são quem o escreveu e o papa”, afirmou. “Mas vamos supor que o dossiê contenha graves alegações de violação do sexto e do sétimo mandamentos, além de chantagem homossexual. Eu duvido que possam ser uma razão para Bento XVI renunciar.” Em entrevista a Peter Seewald, autor de Light of the world: The pope, the church and the signs of the times (“Luz do mundo: O papa, a Igreja e os sinais dos tempos”), o líder católico deu a entender que não abandonaria o trono de São Pedro ante uma crise interna. “Quando o perigo é maior, não se deve fugir. Por essa razão, agora, certamente não é hora de renunciar. Justamente em um momento com esse devemos perseverar e suportar a difícil situação. Pode-se renunciar em um momento pacífico ou quando simplesmente não se pode continuar. Mas não se pode fugir e dizer que alguém mais deveria fazer isso”, declarou, na época.

O padre jesuíta americano Thomas J. Reese, especialista do Centro Teológico Woodstock, da Universidade de Georgetown, mostra-se cético com o dossiê. “Você sempre tem que levar em conta que a imprensa italiana gosta de uma pitada de sal. Com frequência, faz afirmações selvagens e não as sustenta com fatos ou com evidências. Também nunca publica erratas e trata a notícia como entretenimento”, desabafa o autor de O Vaticano por dentro: a política e a organização da Igreja Católica.

“O inimigo não está do lado de fora da Igreja, mas dentro dela”, alerta, em artigo enviado ao Correio, o padre polonês Dariusz Oko, membro da Arquidiocese de Cracóvia e professor da Universidade Pontifícia João Paulo II. Ele admite que os casos de pedofilia envolvendo o clero são, na realidade, efebofilia — uma perversão consistindo em atração homossexual por adolescentes. E defende que a “homomáfia” na Igreja seja tratada de modo profissional. “Devemos agir como um promotor ou um soldado no campo de batalha”, escreveu.

Mudanças em dioceses do Brasil O papa Bento XVI aceitou ontem a renúncia do bispo da diocese de Itabira-Coronel Fabriciano (MG), Dom Odilon Guimarães Moreira, e designou o padre Marco Aurélio Gubiotti, de 39 anos, de Pouso Alegre, que exercia os cargos de professor de teologia e pároco da igreja Nossa Senhora de Fátima. O pontífice designou também, como novo bispo de Floresta (PE), o italiano Gabriele Marchesi, de 49 anos.

Igreja alemã autoriza pílula A Igreja Católica alemã autorizou que os hospitais gerenciados por ela distribuam a pílula do dia seguinte como contraceptivo a mulheres que foram vítimas de estupro. A decisão, anunciada durante uma assembleia geral dos bispos em Tréveris, sucede a polêmica causada, no fim de janeiro, por dois hospitais católicos que se recusaram a dar este tratamento a uma mulher estuprada na cidade de Colônia (oeste). “As mulheres vítimas de abuso têm direito à ajuda humana, médica, psicológica e espiritual. Neste caso, a distribuição de uma ‘pílula do dia seguinte’ é possível na medida em que ela tem um efeito contraceptivo, e não abortivo”, explica o texto publicado pelos bispos alemães. “Continua sendo proibida a utilização de procedimentos farmacêuticos e/ou medicamentosos que levam à morte de um embrião”, ressaltaram.