O Estado de São Paulo, n.46285, 08/07/2020. Política, p.A6

 

Reuniões por vídeo e cloroquina na agenda

Jussara Soares

Pedro Venceslau

Bruno Ribeiro

Caio Sartori

08/07/2020

 

 

Bolsonaro deve despachar com ministros virtualmente; em gravação, defende remédio

Dose. Bolsonaro mostra comprimido de hidroxicloroquina durante vídeo

Após receber o diagnóstico positivo para covid-19, ontem, o presidente Jair Bolsonaro trocou reuniões presenciais com ministros e outras autoridades por videoconferências. Ao dizer ontem, em vídeo nas redes sociais, que estava tomando a terceira dose de hidroxicloroquina, o presidente indicou que, no período de isolamento, deve continuar recomendando o uso do remédio. Não há comprovação científica de que o medicamento funciona no tratamento. Ainda assim, a cloroquina é receitada por alguns hospitais.

"Estou tomando a terceira dose da hidroxicloroquina. Estou me sentindo muito bem. Estava mais ou menos no domingo, mal na segunda-feira. Hoje, terça, estou muito melhor. Com toda certeza, está dando certo", disse antes de engolir o comprimido, no vídeo.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem defendido o uso da cloroquina desde os primeiros sintomas, mesmo sem a eficácia comprovada e riscos ainda sendo estudados. "Sabemos que hoje em dia existem outros remédios que podem ajudar a combater o coronavírus. Sabemos que nenhum tem eficácia cientificamente comprovada, mas é mais uma pessoa que está dando certo. Então, eu confio na hidroxicloroquina.", disse.

De acordo com a Secretaria-Geral da Presidência, Bolsonaro vai receber, por email, do ministro Jorge Oliveira, os assuntos sobre os quais precisa despachar no dia. Em seguida, os dois conversam por vídeo e, por fim, os atos são assinados digitalmente, sem contato pessoal. A rotina na sede do Executivo, porém, seguirá normalmente.

Em comunicado, a Secretaria-Geral da Presidência informou que não existe protocolo médico que recomende isolamento pelo simples contato com casos positivos. "A orientação que damos aos servidores é procurar assistência médica quando apresentarem sintomas relacionados à covid-19, para avaliar necessidade de testagem. Nos casos considerados suspeitos, os servidores são orientados a ficar em casa até o resultado do exame", diz a pasta.

Repercussão. Após o anúncio de que Bolsonaro está com coronavírus, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) disse que o presidente foi vítima da própria narrativa de que a doença não é tão grave. "O presidente criou uma narrativa própria desde o início e repetiu tantas vezes que passou a acreditar nela. Quem o assessora deve ser gente sem o hábito de leitura científica ou que usa informação sem filtro da internet", afirmou Mandetta ao Estadão.

Segundo o ex-ministro, que deixou o governo em abril, o presidente precisa ter cuidado com o temperamento e ficar 14 dias em isolamento total. "É crime quando alguém tem consciência que está com doença infecciosa e contamina o outro intencionalmente. O presidente precisa tomar cuidado com o protocolo", afirmou Mandetta.

Dois dos principais adversários do presidente, os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio, Wilson Witzel (PSC), também comentaram o diagnóstico de Bolsonaro. O tucano escreveu que espera que o presidente "siga as orientações da medicina" para que "em breve, seja restabelecido". "Também fui atingido pela Covid-19 e, seguindo as recomendações médicas, estou certo de que ele irá se recuperar brevemente", disse Witzel.

Bolsonaro também recebeu ontem mensagens de melhoras dos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Alberto Fernández.

Narrativa

“O presidente passou a crer na narrativa (da gripezinha).”

Luiz H. Mandetta

EX-MINISTRO DA SAÚDE