Título: Contra o pacote vermelho
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Fonte: Correio Braziliense, 24/02/2013, Mundo, p. 20
Oposição critica medidas econômicas e cobra transparência. Vice garante que Chávez "continua no comando"
Em meio às incertezas que continuam cercando a situação do presidente Hugo Chávez, internado desde a última segunda-feira no Hospital Militar de Caracas, a oposição venezuelana saiu ontem às ruas de Caracas para protestar não só contra a falta de transparência do governo, mas também contra a situação econômica. O alvo central, porém, foram as medidas anunciadas no último dia 8 pelo vice de Chávez, Nicolás Maduro. O “pacotão vermelho”, como ficou chamado, desvalorizou a moeda — a cotação do dólar passou de 4,30 para 6,30 bolívares — e resultou em reajustes dos combustíveis e dos alimentos. Maduro rebateu críticas em uma assembleia interna do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV, chavista),depois de ter se reunido por cinco horas com o presidente — segundo afirmou — e reiterado que Chávez “continua no comando”. “Se há um governo preocupado com a alimentação, a saúde e a educação, é o do presidente Chávez”, discursou Maduro.
De olho no crescimento da aprovação popular ao vice e sucessor designado, a oposição desfilou com cartazes que exibiam o retrato de Maduro ao lado de frases como “pacotão vermelho = mais inflação” ou “14 anos de mais pobreza”. “Esses senhores dizem estar ao lado do povo, mas o que fizeram foi meter a mão no bolso da população”, acusou o parlamentar Ismael García, do partido Avanço Progressita. O candidato oposicionista derrotado por Chávez na eleição de 2012, Henrique Caprilles, atual governador do estado de Miranda, usou o microblog Twitter para dizer que as medidas governamentais geram apenas “inflação, desvalorização e escassez”
Antonio Ledezma, prefeito de Caracas e, como Capriles, dirigente da coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD), reafirmou que a oposição começará hoje a escolha de um candidato único para enfrentar Maduro nas urnas, caso se caracterize o impedimento permanente do presidente. “Tem de ser um candidato que seja a antítese do que estamos vendo”, disse.
Maduro, por sua vez, voltou a dizer que o presidente se comunica “por gestos e recados”, uma vez que a traqueostomia a que foi submetido em Cuba o impede de falar. O vice garantiu que, embora hospitalizado e mantido em isolamento rigoroso, Chávez lidera o país. “Aqui há um só comandante em chefe, um só chefe supremo da revolução. Nós somos soldados militantes da causa de Chávez”, proclamou.
A presidente Dilma Rousseff falou sobre a saúde do líder vizinho durante entrevista coletiva em Abuja, na Nigéria, onde esteve ontem em visita depois de ter participado, na Guiné Equatorial, da reunião de cúpula África-América do Sul. Dilma contou que o chanceler venezuelano, Elias Jaua, lhe informou que Chávez apresenta “dificuldade para respirar”, mas garantiu que “está tudo sob controle”. “Ele não me deu um quadro muito preocupante”, completou. Na véspera, porém, o próprio Jaua tinha admitido que o presidente venezuelano “está lutando pela vida”. Em Caracas, o ministro das Comunicações, Ernesto Villegas, que divulgara boletim médico segundo o qual a situação respiratória de Chávez “não apresenta evolução favorável”, foi ontem ao Twitter denunciar “a propagação de rumores”.