Título: Podemos fazer o diabo nas eleições
Autor: Santiago, Vandeck
Fonte: Correio Braziliense, 05/03/2013, Política, p. 3

Dilma critica as gestões anteriores ao PT e afirma que, durante o exercício do mandato, governo e oposição devem se respeitar. Presidente anuncia amanhã novidades no PAC

João Pessoa — Na primeira visita que fez à Paraíba desde que foi eleita, a presidente Dilma Rousseff criticou os governos anteriores aos do PT (sem mencioná-los) e disse “podemos fazer o diabo na hora das eleições”, mas “quando estamos no exercício do mandato temos de nos respeitar, porque fomos eleitos pelo voto direto do povo brasileiro”. Dilma falou durante 32 minutos em ato realizado na manhã de ontem na capital paraibana. Ela fez a entrega de um conjunto habitacional de 576 apartamentos a famílias pobres e de 22 máquinas retroescavadeiras para 22 prefeitos de cidades com menos de 50 mil habitantes.

Participaram do evento quatro ministros, o prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo, do PT; e o governador Ricardo Coutinho, do PSB. Depois da própria presidente, Cartaxo foi o mais aplaudido na solenidade — sempre que o seu nome era mencionado, vinham os gritos de apoio. Já o governador Coutinho não teve aplausos e chegou a ser vaiado —, a plateia do ato era majoritariamente ligada ao PT.

Na Paraíba, PT e PSB estão em lados opostos. A visita de Dilma à Paraíba ocorreu dois dias depois de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participar de ato no Ceará, onde o governador, Cid Gomes, também é do PSB — partido cujo presidente nacional, governador Eduardo Campos (PE), trabalha para ser candidato a presidente da República.

Ao ser anunciada como a próxima a falar, encerrando os discursos da manhã, Dilma foi saudada pelos participantes com os gritos de campanhas anteriores de Lula: “Olê, olê, olê, olá/Dilma/Dilma”. Ela não fez menções diretas a nenhum partido, mas o seu discurso foi uma espécie de comparação entre as administrações petistas e as anteriores.

Em outra indireta a administrações anteriores, ela disse que “o governo não pode nem tem justificativa para perseguir quem não é do mesmo partido dele”. Acrescentou que “desde o início do governo Lula nós mudamos a forma de se relacionar (com os partidos)”, e que os recursos são distribuídos independentemente do partido ou das lideranças beneficiadas. “Nós podemos disputar a eleição, brigar na eleição, podemos fazer o diabo quando é hora de eleição. Mas, se a gente está no exercício do mandato, temos que nos respeitar, porque fomos eleitos pelo voto direto do povo brasileiro”, destacou.

Portos Comparou o programa Bolsa Família com o Minha Casa, Minha Vida, afirmando que ambos davam “cidadania” às pessoas. “Nós não descansaremos até que o último brasileiro tenho acesso a uma moradia digna”, disse a presidente. O conjunto habitacional entregue ontem é obra do Minha Casa, Minha Vida. Outra mudança destacada por Dilma é a da “eliminação da miséria visível”, que consiste em tirar da pobreza extrema as famílias cadastradas como tal pelo governo.

Daí passou para a macroeconomia, afirmando que “o Brasil só vai andar pra frente” se resolver os problemas que prejudicam a competitividade do país, como a questão dos portos e aeroportos. O governo federal enviou uma medida provisória para o Congresso reformando a regulamentação dos portos no país — ponto contra o qual o governador Eduardo Campos tem-se insurgido, por considerar que a mudança implicará perda de autonomia dos portos (Pernambuco tem Suape, uma das alavancas do progresso do estado nos últimos anos).

“Cervejinha” Durante a solenidade em João Pessoa, Dilma adotou um discurso descontraído. Citou, inclusive, a “cervejinha” que os beneficiados pelos apartamentos poderão desfrutar nas novas casas. A presidente também agradeceu aos deputados federais presentes ao evento. “São os parceiros que me ajudam no parlamento, em Brasília.”

"Nós podemos disputar a eleição, brigar na eleição, podemos fazer o diabo quando é hora de eleição. Mas, se a gente está no exercício do mandato, temos que nos respeitar, porque fomos eleitos pelo voto direto do povo brasileiro" Dilma Rousseff, presidente da República

A defesa de Falcão O presidente do PT, Rui Falcão, rebateu ontem as críticas do senador Aécio Neves (PSDB-MG) sobre a antecipação da campanha eleitoral de 2014 e disse que o PT deve manter a estratégia de comparar as administrações federais sob seu comando com as de seus antecessores. Na avaliação do presidente petista, não há clima de campanha antecipada no governo. “A eleição é no ano que vem”, minimizou Falcão, ao chegar ao Congresso da Contag, em Brasília.