Título: Planalto admite alta dos juros para 8,25%
Autor: Martins, Victor
Fonte: Correio Braziliense, 05/03/2013, Economia, p. 8

Assessores asseguram que Dilma já deu aval ao BC para aumentar a taxa básica se a inflação não ceder. A aposta é de elevação de um ponto percentual em um período curto de tempo, para diluir críticas da oposição e retomar a confiança dos investidores

A presidente Dilma Rousseff já deu carta branca ao presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, para elevar a taxa básica de juros (Selic), caso a inflação piore ainda mais. Com as atenções voltadas quase que integralmente para a campanha eleitoral de 2014, ela está convencida de que o pior que pode acontecer para seu governo é uma corrosão maior do poder de compra da população, sobretudo da nova classe média, cujos votos serão decisivos para a esperada reeleição.

Apesar do otimismo mostrado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, técnicos da Pasta admitem que a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), no acumulado em 12 meses, poderá romper o teto da meta perseguida pelo BC, de 6,5%, ainda neste primeiro semestre, para só então começar a cair — e, mesmo assim, de forma muito gradual. O problema é que esse estouro terá um pesado custo para a imagem da política econômica, que já está envolta em desconfiança.

Na avaliação do Palácio do Planalto, caso o Comitê de Política Monetária (Copom), que se reúne hoje e amanhã para debater os rumos das taxas de juros, realmente tenha de elevar a Selic, que a alta ocorra em um prazo curto de tempo, para não alimentar o discurso da oposição, que se prepara para bater na atual gestão. Assessores de Dilma afirmaram ao Correio que, no quadro traçado pela Fazenda, o ciclo de ajuste da taxa básica será de, no máximo, um ponto percentual, com duas elevações de 0,5 ponto, de 7,25% para 8,25% ao ano. Esse ajuste, no entender deles, seria suficiente para conter as expectativas do mercado e reforçar o compromisso do governo em manter o custo de vida de vida dentro das metas inflacionárias, que podem variar entre 2,5% e 6,5%.

Para o Planalto, está praticamente certo que, na reunião desta semana, o Copom manterá a Selic em 7,25% ao ano, com o intuito de avaliar melhor como está o comportamento da economia e, principalmente, se a inflação começará a dar trégua. Uma parte dos auxiliares de Dilma acredita que é possível o BC postergar a alta da Selic para abril ou maio, para que o aperto monetário não enterre a ainda frágil retomada do crescimento. Durante esse período, o governo poderia lançar mão de mais incentivos aos investimentos produtivos, reduzindo, por exemplo, o custo de financiamento de novos projetos.

A gestora de risco Austin Rating avalia que, a despeito da fraca recuperação da economia, a inflação voltou a pesar mais do que o crescimento para o BC. Na opinião de Felipe Queiroz, economista da empresa, a Selic ficará estável por um bom período de 2013, mas sempre com a autoridade monetária em estado de alerta, pronta para ajustar a Selic. “O Copom segue pautado pela dinâmica inflacionária, que permanece acima do centro da meta de forma persistente”, afirmou. O banco ABC Brasil faz avaliação semelhante. “Aumentaram as chances de que os ajustes nos juros, que esperávamos apenas para 2014, ocorram ainda em 2013, preferencialmente ao longo do segundo semestre”, argumentou Luís Otávio de Souza Leal, economista-chefe da instituição. “Os próximos dados de inflação serão determinantes para isso, assim como a comunicação do BC por meio de seus documentos oficiais”, disse.

Divergências Mesmo com todos os sinais emitidos pelo BC e com o fato de a presidente Dilma reforçar a necessidade de o governo reforçar o discurso de que está preocupado com a inflação, boa parte do mercado, até o momento, continua cética em relação a uma possível elevação da Selic em 2013. Segundo dados do boletim semanal Focus, no qual o BC reúne as previsões de cerca de 100 analistas, a taxa ficará inalterada até o fim do ano e, no decorrer de 2014, subiria para 8,25% ao ano. “Nada comporta essa política monetária. O cenário de inflação exige ajuste. O problema é saber o que o BC vai fazer”, assinalou Flávio Serrano, economista sênior do Espírito Santo Investment Bank. Segundo André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, o Copom pode até subir os juros, mas desde que o governo crie medidas alternativas para o financiamento dos investimentos produtivos.

Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco WestLB do Brasil, ponderou, entretanto, que o BC deve se manter fiel ao que tem escrito nas últimas atas das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) e continuar com os juros baixos por “um período de tempo suficientemente prolongado”. “Além disso, a decepção com o crescimento econômico no último trimestre do ano passado, que resultou em um avanço acumulado de apenas 0,9% em 2012, deve fazer com que o governo mantenha a política econômica voltada para a alta do PIB”, observou.

Pessimismo No boletim Focus, do Banco Central, os especialistas seguem reduzindo as previsões para o Produto Interno Bruto (PIB) e elevando as de inflação. No desta semana, a estimativa de crescimento para 2013 caiu de 3,10% para 3,09%; a de carestia passou de 5,69% para 5,70%. Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, no caso das projeções de expansão econômica, o mercado está extremamente otimista. “Para crescer 3,09% teríamos de avançar, em média, ao longo do ano, 1% por trimestre. É uma hipótese irrealista. Nem no período de maior vigor econômico chegamos a isso”, alertou. “Minha expectativa é de que o Brasil vai evoluir 2,08% neste ano”, calculou.