Título: O pai Fidel foi quem ficou órfão
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 07/03/2013, Mundo, p. 20

Nos 14 anos em que governou a Venezuela, Hugo Chávez substituiu a União Soviética no papel de sustentar a economia de Cuba. Escolha do sucessor será crucial para o futuro das relações entre Caracas e Havana

A eleição para escolher o sucessor de Hugo Chávez será decisiva para definir o futuro das relações entre Venezuela e Cuba, parceiras no terreno ideológico e, mais ainda, no campo econômico. Especialistas avaliam que, caso saia vencedor o atual vice, Nicolás Maduro, herdeiro designado do presidente falecido, não haverá alterações nas relações entre Havana e Caracas. Porém, caso a oposição prevaleça, a situação não será mais a mesma.

No dia da morte de Chávez, o ex-presidente cubano Fidel Castro afirmou que havia perdido um “filho verdadeiro”. Porém, na avaliação dos analistas, quem ficou mesmo órfão na relação entre os dois países, principalmente na questão econômica, foi o regime comunista de Havana. “A Venezuela investiu muito no setor energético em Cuba, principalmente no petróleo”, observa a especialista em América Latina Regiane Nitsch Bressan, professora de relações internacionais na Faculdade Rio Branco, de São Paulo.

Segundo a estudiosa, se Maduro for eleito presidente, dificilmente as relações entre os dois países cessarão, mas poderá haver uma aproximação maior com os Estados Unidos, algo praticamente impensável sob o comando de Chávez. “Maduro é bem mais moderado e pode alterar as relações com Washington”, diz Regiane, explicando que tudo vai depender do resultado das urnas, nas próximas semanas. Ela avalia que a situação será diferente caso vença um adversário do chavismo — mais provavelmente, o principal líder da oposição, Henrique Capriles, derrotado por Chávez em 2012. “Se isso acontecer, a relação entre Cuba e Venezuela será prejudicada. Capriles já disse que mudaria as relações externas do país”, ressalta a professora.

A ilha dos irmãos Fidel e Raúl Castro — este o atual presidente — sofre embargo econômico dos Estados Unidos há meio século. Durante a Guerra Fria, Cuba foi amparada pela hoje extinta União Soviética. Segundo o professor Pio Penna Filho, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a Venezuela vinha cumprindo esse papel na era Chávez, principalmente garantindo o abastecimento de petróleo. “Imediatamente, nada muda. Tudo vai depender de que a oposição tome ou não o poder”, diz o especialista. “Até então, Cuba era um filho que não tinha pai, e Caracas passou a dar um suporte muito importante à ilha”, acrescenta.

Para Penna Filho, não é apenas Cuba que depende da Venezuela e que será prejudicada caso haja mudança na política externa de Caracas. Para o professor da UnB, Bolívia e Nicarágua também recebem benefícios do governo venezuelano e sentiriam a alternância nas relações. Além disso, segundo o especialista, em alguns aspectos, até mesmo Brasil, Estados Unidos e China têm motivos para ficarem preocupados, pois também possuem relações comerciais que podem ser alteradas com uma troca de comando no Palácio Miraflores.

“Se Maduro for eleito, vai dar continuidade ao que Chávez vinha fazendo, mas em um ritmo mais lento”, arrisca Penna Filho, dando como exemplo os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff. Segundo o professor, a mandatária continuou o trabalho do antecessor, mas adotando estilo próprio. “Se o eleito for Capriles, o cenário será outro e bem melhor”, afirma Penna Filho, lembrando que as relações de Maduro com os EUA não devem se alterar.

Conforme o professor da UnB, o herdeiro designado pode ganhar as eleições por ter sido vice na chapa de Chávez e indicado pelo próprio ex-presidente como sucessor. Penna Filho acredita que o chavismo se mantenha no poder, ao menos por enquanto. “Tem que estar preparado para, no mínimo, mais um período”, observa o especialista. Nicolás Maduro, que assumiu interinamente o poder, deverá ser o candidato do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), fundado por Chávez para dar lastro ao seu projeto do “socialismo do século 21”.

Cuba era um filho que não tinha pai, e Caracas passou a dar um suporte muito importante à ilha” Pio Penna Filho, professor da UnB

Maduro é bem mais moderado e pode alterar as relações com Washington” Regiane Nitsch Bressan, professora da Faculdade Rio Branco

Ouro negro de Moscou Depois de entrar em rota de colisão com os Estados Unidos, o regime revolucionário implantado em Cuba por Fidel Castro, em janeiro de 1959, aproximou-se rapidamente da hoje extinta União Soviética, na época sob a liderança de Nikita Krushev. Até meados dos anos 1980, os soviéticos praticamente sustentaram a ilha economicamente, além de suprir material bélico ao regime comunista. Antes mesmo de a URSS ser dissolvida, em 1991, seu último presidente, o reformista Mikhail Gorbachov, já tinha retirado boa parte da ajuda. Desde então, Havana decretou um “período econômico especial”, marcado pela severa escassez de bens de consumo.