Título: Estadista por esporte
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 07/03/2013, Mundo, p. 20
Para Hugo Chávez, o esporte não representava apenas diversão nas horas vagas. Entusiasta de diversas modalidades, ele também o utilizava para promoção política. No ápice dos incentivos, criou com o líder cubano, Fidel Castro, os Jogos do Alba, espécie de versão esquerdista dos Jogos Pan-Americanos. Iniciada em 2005, a competição nunca chegou a empolgar e tem a quinta edição prevista para julho próximo. Para assegurar número suficiente de participantes, os dois países forçaram a barra: na última edição, duas delegações da Venezuela e três de Cuba estiveram ao mesmo tempo no top 10, graças às conquistas em provas como dominó, xadrez e escalada.
Desde criança, o político nutria especial admiração por Nélson Chávez, arremessador histórico de beisebol, que morreu com 21 anos, depois de uma ótima estreia pelo San Francisco Giants. O outro Chávez, Hugo, exibia as próprias habilidades sempre que conseguia. Há um ano e meio, reuniu a imprensa no palácio presidencial para comunicar o sucesso do tratamento do câncer — e comemorou arremessando algumas bolas.
A revolução bolivariana chegou de forma oficial ao esporte venezuelano no começo do ano passado, com a aprovação de uma lei que passou a assegurar o direito constitucional ao esporte, estipulou a criação de 2 mil instalações esportivas e tornou obrigatórias as aulas de educação física nas escolas. Autodenominado patrono do esporte, Chávez gastou US$ 750 milhões, em 2007, para levar ao país, pela primeira vez, uma edição da Copa América de futebol.
“Venceremos” ou “Viva a Venezuela” tornaram-se exclamações comuns no perfil oficial de Chávez no Twitter. O presidente não se cansava de exaltar os feitos do esporte venezuelano. No último recado do tipo, em 23 de outubro, comemorou bastante o feito de um garoto no automobilismo: “A Venezuela tem um novo campeão mundial, agora em Easykart: Mauricio Baiz, de apenas 13 anos! Bravo, Mauricio!”
Investimento e retorno
A aplicação chavista no esporte ficou conhecida mundialmente apenas em 2010, quando a estatal petroleira PDVSA bancou a entrada do piloto venezuelano Pastor Maldonado na Fórmula 1, por US$ 15 milhões. O montante não parou de aumentar, até alcançar US$ 46 milhões no ano passado. O governo federal o apoiou desde o kart, passando por todas as categorias de base. “Não se foi apenas um presidente, se foi um grande homem, cujos ideais transcenderam mais além: um soldado, um lutador, um herói”, definiu o piloto, ao saber da morte de Chávez.
Uma vitória do piloto da Williams no Grande Prêmio de Barcelona, em maio do ano passado, deu os primeiros retornos à estatal. No Twitter, o presidente esbanjou alegria: “Eu avisei: ganhou o nosso Pastor Maldonado, fazendo história! Bravo, Pastor! Parabéns a você e a toda a equipe! Venceremos”. Sem Chávez, fica em xeque a carreira do piloto na F-1. Henrique Capriles, líder da oposição, já declarou ser contrário ao investimento maciço de estatais no esporte.