Título: Marcha do caos na Esplanada
Autor: Dinardo, Ana Carolina ; Medeiros, Etore
Fonte: Correio Braziliense, 07/03/2013, Cidades, p. 36

Manifestação organizada por centrais sindicais dificulta o trânsito na área central e irrita motoristas que tentavam chegar ao trabalho

Quem foi pego de surpresa e tentou fugir dos transtornos causados pela 7ª Marcha das Centrais Sindicais e Movimentos Sociais não teve sucesso. A manhã de ontem foi de caos na região central de Brasília, com reflexos no trânsito de todo o Plano Piloto. Os motoristas que saíram das asas Sul e Norte em direção à Esplanada dos Ministérios levaram quase uma hora para percorrer um trajeto que normalmente é feito em 15 minutos. “Foi um tormento. Me preparei a fim de não me atrasar para uma reunião, mas não houve jeito. Cheguei quase meia hora depois do previsto. Da minha casa até o trabalho, só consegui passar duas marchas no carro, a primeira e a segunda, devido ao engarrafamento”, desabafou a funcionária pública Suely Ferreira, 50 anos.

Relatos semelhantes ao de Suely foram repetidos por toda a manhã nas ruas da capital. A concentração da marcha começou por volta das 8h em frente ao Centro de Convenções, no Eixo Monumental, obrigando a Polícia Militar a fechar três das seis faixas da via. Com isso, o trânsito. que já é bastante complicado nesse horário em dias sem protestos, se transformou num verdadeiro pesadelo para quem se dirigia à Esplanada. De acordo com a PM, 50 mil pessoas tomaram as ruas de Brasília.

Acordo descumprido Por volta das 10h, quando os manifestantes saíram em passeata em direção ao Congresso Nacional, a situação se agravou. O problema maior foi o descumprimento do acordo firmado entre a Secretaria de Segurança Pública e as centrais sindicais de que seriam interditadas somente três faixas até o fim do evento. Porém, por falta de organização, as seis pistas de rolamento foram tomadas pelos manifestantes. “O Batalhão de Trânsito perdeu o controle depois da passagem pela Rodoviária do Plano Piloto. Os sindicalistas ocuparam as outras pistas e, durante 1h10, tudo ficou parado. Com isso, desviamos os veículos para as vias S1 e S2, mas a quantidade de carros foi muito grande, tendo em vista que estávamos no horário de pico”, afirmou o major da Polícia Militar Wagner Freitas.

As medidas tomadas pela PM não foram capazes de desafogar o trânsito. Com isso, as principais vias da cidade sentiram o impacto da manifestação. Freitas disse ainda que nenhum acidente foi registrado no local. O monitoramento da marcha foi realizado por 16 viaturas e 20 motos.

Diante dos impasses no trânsito, vários motoristas ficaram revoltados porque nem mesmo os caminhos alternativos conseguiram aliviar os congestionamentos. Quem optou por cortar caminho pelo Parque da Cidade ou pelas pistas que dão acesso aos ministérios também ficou frustrado.

Além do desafio de chegar ao trabalho, quem trabalha na Esplanada enfrentou dificuldades para deixar ou acessar a área próximo ao horário do almoço. Funcionária terceirizada da Câmara dos Deputados, Laila Paiva buscou o acesso à Casa pela Avenida das Nações, já com intuito de fugir do congestionamento. Ainda assim, perdeu uma hora entre os veículos. “É normal ter manifestação e engarrafamento, mas até a Avenida das Nações, como hoje. Não consegui chegar ao trabalho antes das 14h”, relatou Laila.

Servidor do Ministério da Previdência Social, Edivá Júnior também teve dificuldades para chegar ao prédio. Para ele, falta organização nas manifestações a fim de garantir a liberação de um número suficiente para o deslocamento dos veículos. “A gente entende o lado dos manifestantes, mas isso causa impacto grande na rotina da Esplanada. Em um trecho que costumo levar 15 minutos, do Tribunal de Justiça ao ministério, foi mais de uma hora hoje”, reclamou.

O trânsito completamente parado provocou ainda um efeito cascata nos restaurantes localizados na área central. Devido à demora para sair e voltar ao trabalho, muitos preferiram almoçar nas proximidades. Com isso, a espera na fila por uma refeição chegou a duas horas. “Os restaurantes dos ministérios nunca ficaram tão cheios, ninguém teve coragem de sair. Eu almoço sempre no Ministério dos Transportes, mas, hoje, demorou muito para conseguir”, afirmou Sandra Alves, funcionária do Ministério da Saúde.

Forte calor

Não foi apenas o tumulto no trânsito motivou a revolta de muitos brasilienses. Além do forte calor na hora dos engarrafamentos — segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) chegou aos 30ºC —, a sujeira deixada pelos sindicalistas incomodou quem transita pela região. Segundo relatos de quem passou pelo local, depois da manifestação, as vias e os gramados da Esplanada dos Ministérios viraram um verdadeiro lixão. A limpeza ficou a cargo de 150 garis, que se revezaram para fazer o trabalho. De acordo com o Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU), foram recolhidas mais de 5 toneladas de lixo.