Título: Juros para ter a casados sonhos
Autor: D'Angelo, Ana
Fonte: Correio Braziliense, 03/03/2013, Economia, p. 12
A analista judiciária Gisleine Barcelos, 30 anos, trocou o aluguel de R$ 2 mil que pagava por uma prestação de cerca de R$ 2,8 mil. Apesar do desembolso maior, sobretudo com juros, prevaleceu a vontade de ter o seu próprio apartamento em um condomínio que ela adora, de poder ajeitá-lo a seu gosto e de não ficar mais à mercê de pedidos de retomada de proprietários. Ela consegue amortizar cerca de R$ 900 por mês do empréstimo de R$ 300 mil de um flat de um quarto num condomínio à beira do lago Paranoá.
Apesar do temor de contrair uma dívida por 30 anos, a servidora admite, no entanto, que as taxas de juros baixas, de 7,8% ao ano, que conseguiu na Caixa Econômica Federal, foram um incentivo, além de ser um imóvel valorizado que tem aluguel na casa dos R$ 2 mil. "O que pesou mais foi a vontade de morar aqui nos próximos cinco anos, pelo menos", conta Gisleine, certa de que a estabilidade no emprego minimizou o risco de assumir uma dívida alta.
Jurandir Macedo, professor da Universidade Federal de Santa Catarina e fundador do Instituto de Educação Financeira, destaca que a opção por financiar a casa própria ou poupar para adquiri-la à vista, continuando a pagar o aluguel, não é uma mera questão matemática, pois tem um componente comportamental crucial. "O sentimento envolvido na aquisição da casa própria e os ganhos pessoais fazem com que o brasileiro não tome uma decisão baseada apenas em cálculos financeiros em relação a financiar o imóvel ou a pagar aluguel, se a prestação cabe no orçamento", afirma. Além disso, deixar dinheiro rendendo no banco em vez de comprar logo o imóvel, que pode ter eventual valorização, embute o risco de gastar os recursos em outras despesas.
Macedo cita o caso de uma senhora de 65 anos de Florianópolis que decidiu vender a casa que possuía no interior de Santa Catarina, pois tinha aluguel baixo, para ganhar mais investindo o valor. Na hora que o dinheiro da venda foi para a aplicação financeira, começou a diminuir. É que ela foi retirando parte do capital. Uma hora era o filho pedindo; outra, a filha. Também comprou um carro. Quando se deu conta, os recursos tinham ido quase todo embora. "Do ponto de vista financeiro, ter a casa pode não ser vantagem, mas o patrimônio continua lá", afirma o especialista. Mas ele alerta sobre a necessidade de o comprador pesquisar bem para fazer um bom negócio, e não se deixar levar por impulso e entusiasmo demais.
Para o diretor de vendas da Êxito Imobiliária, Alexandre Lucho Langer, os investimentos em imóveis e no mercado financeiro são distintos. "Morar na casa própria tem valor intangível, envolve questões de segurança", afirma. Ele aconselha, no entanto, que as pessoas comecem com um imóvel menor, já que a dívida é por muito tempo, ainda que sonhem com aquela cobertura. "Para não ter o orçamento estrangulado e não conseguir pagar depois", diz.
7,8% Taxa anual de financiamento imobiliáriofalsefalsetrueJuros parater a casados sonhosQuando as pessoas querem o patrimônio que garantirá um futuro mais tranquilo, vale encarar os encargos cobrados pelos bancos