Título: Moradores vão às urnas, em referendo
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Fonte: Correio Braziliense, 11/03/2013, Mundo, p. 15
O Reino Unido e a Argentina saberão ainda hoje se os habitantes das Falklands/ Malvinas desejam continuar sob administração britânica, embora o resultado já seja bem conhecido. Ontem, os 1.672 eleitores do arquipélago, onde vivem 2.563 pessoas, começaram a votar em um referendo organizado pelos próprios moradores, que rejeitam maciçamente a reivindicação argentina sobre o território. A votação foi ignorada pelo governo de Cristina Kirchner, que classificou o ato como irrelevante, enquanto que os argentinos o consideram de extrema importância.
Segundo uma pesquisa da YouGov para a Sky News, publicada no sábado, 24% dos argentinos acreditam que o referendo sobre as Falklands/Malvinas é a principal questão de política externa do país. Enquanto isso, os britânicos não parecem tão preocupados: apenas 1% julgou que a votação é assunto prioritário. Outra pesquisa, da ComRes para a ITV news, revelou que 77% dos britânicos estimam que os moradores deveriam decidir por eles mesmos o futuro das ilhas. E 60% acreditam que o Reino Unido não deve descartar opções militares contra uma ameaça dirigida às ilhas Falklands/Malvinas.
“Nós esperamos que os indecisos ou desinformados, ou ainda os países que estão preparados para dar apoio à alegação argentina de soberania, possam fazer uma pausa para pensar depois do referendo”, disse ao site do jornal The Guardian John Fowler, vice-editor do jornal semanal do arquipélago, o Penguin News. “Essa é uma tentativa de dizer: ‘Espere um minuto, existe um outro lado da história’”, completou. Nas ruas da capital, Stanley, onde vivem 80% dos habitantes, cartazes diziam, em inglês: “Nossas ilhas, nossa escolha”.
Negociação O governo argentino insiste que a disputa deve ser resolvida mediante negociações bilaterais entre Londres e Buenos Aires, como pede a ONU desde 1965, sem interferência dos moradores. Mas o Reino Unido sempre rejeitou a opção, alegando que essa alternativa pertence aos habitantes das ilhas. “Os únicos que podem decidir realmente o que mais lhes interessa são os habitantes locais”, afirmou à AFP Dick Sawle, integrante da Assembleia Legislativa do arquipélago, situado no Atlântico Sul, a 400km da costa argentina.
“Nós nos enganaríamos se pensássemos que a Argentina vai mudar (de posição) da noite para o dia, mas esperamos enviar uma mensagem forte a eles e aos demais”, comentou Jan Cheek, também da Assembleia Legislativa das Falklands/Malvinas. Já a embaixadora argentina em Londres, Alicia Castro, afirmou que o referendo não tem efeito nenhum do ponto de vista do direito internacional. “Um referendo entre os habitantes britânicos das ilhas em nada altera a essência da questão Malvinas. Seu resultado previsível não coloca fim à disputa nem aos inquestionáveis direitos argentinos”, declarou Castro ao jornal digital Infobae.
O referendo ocorre num momento em que o governo Kirchner leva adiante uma vasta ofensiva internacional para que Londres aceite iniciar negociações diplomáticas pela disputa de soberania no arquipélago. Em 1982, as ilhas foram palco de uma guerra de 74 dias, que deixou 649 argentinos e 255 britânicos mortos.