Valor econômico, v. 21, n. 5117, 29/10/2020. Brasil, p. A10

 

Parceria une empresa a jovem vulnerável por emprego e educação

Marli Olmos

29/10/2020

 

 

Iniciativa do Unicef, companhias e terceiro setor chega ao país e quer beneficiar 1 milhão

As imagens dos códigos que Victor dos Santos Cruz via nas telas pretas dos monitores no escritório onde ele fazia limpeza pareciam letrinhas coloridas. Ele aproveitava os intervalos do pessoal, no cafezinho, para perguntar sobre aquele trabalho que o fascinava. O interesse do rapaz encantou os funcionários e alguns passaram a dedicar o tempo livre, no almoço ou após o expediente, para ensiná-lo. Em novembro de 2018, sete meses depois de entrar na empresa, Victor trocou a faxina pelo computador e tornou-se um dos programadores de software da Geru, fintech de empréstimo pessoal on-line.

Histórias como a desse paulistano de 21 anos, que sempre gostou de estudar, poderiam ser mais frequentes. Mas precisam de uma “mãozinha” de quem pode oferecer uma oportunidade. Já existem iniciativas nessa direção. Foi lançada, ontem, a versão brasileira de uma parceria global que reúne organizações como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), instituições, terceiro setor e empresas do setor privado.

A ideia é atrair empresas que se comprometam a oferecer trabalho de aprendiz, estagiário ou emprego formal, além de acesso à educação e inclusão digital, a jovens em situação de vulnerabilidade. O nome do plano - “Um milhão de oportunidades” - representa a quantidade de jovens de 14 a 24 anos que o movimento pretende beneficiar no Brasil num prazo de dois anos.

A meta é ambiciosa, principalmente num país em que a pandemia agravou o problema de evasão escolar. O Brasil tinha, antes da covid-19, 1,7 milhão de crianças e adolescentes entre quatro e 17 anos fora da escola. O fechamento de escolas, durante o surto da doença, fará esse número aumentar, segundo Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil.

O movimento começa com o lançamento de uma plataforma digital que servirá de ponte entre o setor privado e talentos escondidos nas periferias urbanas e áreas rurais. A plataforma permite a busca, de trabalho e de candidatos, por regiões. O Unicef está, também, em contato com entidades da iniciativa privada, como a Confederação Nacional do Comércio e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial.

Victor contou sua história no Linkedin. “Postei como forma de divulgar”, diz. O jovem dedicou-se aos estudos desde criança porque a mãe “fazia a lição de casa junto”. Começou a trabalhar cedo, num lava-rápido. Depois foi para um salão de cabeleireiro. Mas o seu destino mudou no dia em que começou no emprego de auxiliar de limpeza. “Eu puxava conversa para aprender mais até enquanto limpava o banheiro”, afirma.

“O Victor sempre foi muito curioso, mas, ao mesmo tempo muito cuidadoso. Evitava atrapalhar durante o trabalho”, afirma Sandro Reiss, fundador da Geru. “O mérito é do Victor e a história é dele”, afirma o empresário. Ele diz, no entanto, que as empresas “têm que fazer um esforço para trabalhar a desigualdade e corrigir injustiças sociais históricas”.

Um dos objetivos do movimento é mostrar que a iniciativa não pode ser vista como caridade, mas como formação de mão de obra de uma geração que, segundo Florence, do Unicef, “tem um potencial fantástico”.

O Brasil tem hoje a maior geração de jovens de sua história, segundo o Unicef. São mais de 48 milhões de pessoas -23% da população - entre dez e 24 anos de idade. “Boa parte dos empregos de hoje deixará de existir. É preciso aproveitar esse bônus demográfico, que oferece pessoas com capacidade de aprender muito mais do que qualquer outra faixa etária.”

O movimento é parte do programa global Generation Unlimited (no Brasil, Geração que Move), em fase de lançamento em 23 países. Reúne nove organizações, incluindo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Para aderir, a empresa precisa seguir critérios e a vaga oferecida, tem de ser “de qualidade”, segundo Florence. Trabalho de qualidade significa servir de entrada para uma profissão. “Não pode ser, por exemplo, apenas tirar cópias de xerox; o que não quer dizer que o candidato não possa tirar xerox também”, diz.

Sétimo de nove irmãos, morador no Grajaú, zona sul de São Paulo, Victor tem em seu entorno exemplos de quem encontrou portas fechadas. Ele lamenta por amigos que desistiram da faculdade por falta de recursos e por outros, negros como ele, visivelmente rejeitados em entrevista de emprego “não pela falta de conhecimento”. Ele também cansou de enfrentar caras desconfiadas ao entrar supermercado - “por mais bem vestido que esteja”.

A inclusão e a diversidade, pontos fortes do movimento, contam com exemplos de multinacionais. No início do ano, a americana Procter & Gamble criou um programa para aumentar a quantidade de negros e pardos nos escritórios da companhia. “Percebemos que tínhamos pretos e pardos nas fábricas, mas eles não estavam bem representados nos escritórios”, diz Juliana Azevedo, a principal executiva da P&G no Brasil.

Curiosamente, esse recrutamento ganhou mais força quando a empresa iniciou entrevistas on-line por causa da pandemia. “Percebemos que muitos perderam o medo”, afirma Juliana. Prédios esquisitos, com elevadores sofisticados e gente que se comunica em outras línguas, costumam amedrontar nesses casos. Mas, por outro lado, a inclusão levou lições para os funcionários da P&G. “Eles nos ensinaram, por exemplo, que gastávamos valores altos demais no vale-refeição”, diz Juliana, uma engenheira, que entrou na P&G como estagiária há quase 25 anos.

Há um tempo, chamou a atenção de Juliana ver que algumas pessoas com deficiência não estarem em postos-chave. Só em áreas de suporte. Foi, então, criado um grupo de mentores, responsáveis por atendimento personalizado, o que evita expor as dificuldades.

É preciso perceber, por exemplo, que alguém com dificuldades para enxergar precisa de um computador que leia e-mails. Já o autista, que, em geral, não suporta barulho, terá facilidade para trabalhar se usar um fone diferenciado.

O movimento já tem apoio de empresas como Bayer, Americanas, Mastercard, Google, Magazine Luíza e Saint Gobain, além da Fundação Roberto Marinho e institutos Itaú Social, Unibanco e Claro.

Para Juliana, para dar oportunidades basta vontade. Mas isso não vale só para o empregador. Victor está no fim do curso universitário de análise e desenvolvimento de sistema e prepara-se para mais uma faculdade, de engenharia de software. Mas ele conhece muita gente que não se esforça. “Há pessoas que não querem saber de estudar. Por isso, acabam tendo de pegar trabalho mais pesado”, diz.