Título: Seria um sonho ter um pontífice brasileiro
Autor: Amorim, Diego
Fonte: Correio Braziliense, 13/03/2013, Mundo, p. 18

Do gabinete no terceiro andar de um prédio na Via da Conciliação, que leva à Praça de São Pedro, o embaixador do Brasil na Santa Sé, Almir Franco de Sá Barbuda, torce para ver um compatriota ser apresentado ao mundo no balcão central da Basílica. “Já pensou um papa brasileiro na Jornada Mundial da Juventude?”, empolga-se o diplomata, há dois anos no cargo, referindo-se ao evento marcado para julho no Rio de Janeiro. Em conversa com o Correio, no primeiro dia de conclave, Barbuda, que é católico praticante, enalteceu o trabalho do papa Bento XVI, sobretudo no combate aos abusos sexuais dentro da Igreja. “Quem assumir vai encontrar um terreno melhor do que o encontrado por ele”, defende o amazonense, que também levou um susto quando soube da renúncia do alemão.

Que avaliação o senhor faz das relações diplomáticas do Brasil com a Santa Sé no pontificado de Bento XVI? A melhor possível. A Cúria Roma tem grande apreço pelo Brasil e consciência do peso do maior país católico do mundo. O papa foi a Aparecida (SP), em 2007, assinou acordo com o governo brasileiro e escolheu o Rio de Janeiro para a próxima Jornada Mundial da Juventude.

O senhor esteve muitas vezes com Bento XVI? Sim, várias. Ele dizia gostar muito do Brasil e demonstrava um grande conhecimento do país. Mostrava-se preocupado com a Amazônia, sabia da queda dos índices de pobreza e, do ponto de vista religioso, conhecia o avanço das seitas evangélicas e o crescimento do relativismo no Brasil, com muitos católicos deixando de ir a Igreja.

A renúncia foi surpresa para quem está aqui tão próximo? Foi surpresa para todo mundo. Quem afirma por aí que percebeu sinais só os percebeu depois. Aí fica fácil. Quando Bento XVI disse que ele próprio ou o sucessor iria ao Rio para a Jornada, ninguém pensou em renúncia naquela ocasião. Bento XVI agiu de maneira muito silenciosa. Talvez porque já tivesse tomado a decisão e não queria ser desestimulado por ninguém.

Como o senhor classifica o momento atual da Igreja? A Igreja já atravessou fases muito piores do que esta. Problemas existem e sempre vão existir. Não se pode imaginar que não vá ter escândalos na Igreja. De vez em quando, vai pipocar alguma coisa, como é normal em qualquer lugar do mundo, em qualquer país, em qualquer meio político. A Igreja também tem o seu lado político. Mas Bento XVI foi corajoso e combateu os maiores problemas.

Quais problemas? Os que João Paulo II não conseguiu combater porque já estava muito velho e doente: principalmente a guerra contra os abusos sexuais dentro da Igreja. Bento XVI atacou esse ponto, aprovou vários regulamentos para controlar e supervisionar o que ocorre nas igrejas, puniu sacerdotes e pagou bilhões de dólares em indenizações pelo mundo afora, sobretudo nos Estados Unidos. Enfim, ele realmente se empenhou. Além disso, tentou fazer uma boa limpeza no IOR (Banco do Vaticano). Quem assumir vai encontrar um terreno melhor do que o encontrado por ele.

Qual deve ser o perfil do novo papa? Tem que ser jovem, até 70 anos. Depois, alguém com uma espiritualidade capaz de atrair os católicos de volta para as igrejas e que se empenhe em dar cara nova à Cúria Romana, além de avançar na questão do ecumenismo.

Teremos um papa brasileiro? Seria um sonho. Estou na torcida. Já pensou um papa brasileiro na Jornada Mundial da Juventude? Temos candidatos bons e espero que os jornais estejam corretos em suas apostas. Dom João Braz de Aviz e dom Odilo Scherer têm personalidades bastante diferentes, mas cada um com sua força.

O senhor tem um preferido? Ah, não poderia dizer.

Se tivermos papa brasileiro, mudaria a relação diplomática entre os dois países? A relação com a Igreja sempre foi muito boa. Acho que não mudaria tanto. Não sei nem se o papa iria mais ao Brasil por ser brasileiro. Mas, certamente, mais brasileiros viriam a Roma.

“A Igreja já atravessou fases muito piores do que esta. Problemas existem e sempre vão existir. Não se pode imaginar que não vá ter escândalos na Igreja”