Título: Um país que precisa mais do que elogios
Autor: Castro, Giselle; Mariz, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 15/03/2013, Brasil, p. 7
Brasil fica estagnado na 85ª posição do ranking que mede o Índice de Desenvolvimento Humano no mundo. Apesar disso, relatório da ONU aponta a nação como exemplo de combate à pobreza, ao lado de China e Índia
Na corrida pelo bem-estar social, o Brasil continua no mesmo lugar comparado ao ano anterior. Estacionou na 85ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que engloba 187 países. Divulgados ontem pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), os dados apontam que, apesar de não ter evoluído na classificação, o indicador brasileiro cresceu 0,27%, passando de 0,728, em 2011, para 0,730, em 2012 — em uma escala de 0 a 1. Quanto maior a nota, mais desenvolvido está o país. O aumento gradual do índice nas últimas duas décadas colocou o Brasil na lista dos 15 que mais melhoraram o IDH no período, mas ainda longe do topo da lista, encabeçada por Noruega, Austrália e Estados Unidos (leia ao lado).
Desde que começou a ser calculado, em 1980, o Brasil elevou seu IDH em 39,8%, saindo de 0,522. A maior aceleração, porém, ocorreu de 1990 a 2000, a 1,26% ao ano. Nos últimos 12 anos, o índice continuou subindo, mas no ritmo de apenas 0,73% ao ano. Logo depois do anúncio, o governo questionou a metodologia (leia reportagem na página 8). Já prevendo as críticas, o Pnud reconheceu que usa dados de anos anteriores compatíveis com os disponibilizados pelos demais países para evitar distorções na comparação. Com as estatísticas mais atuais, o IDH brasileiro seria de 0,754 — mesmo índice do Cazaquistão, que está na 69ª posição. O organismo da ONU ressaltou, entretanto, que o recálculo não pode ser usado para "subir" no ranking, uma vez que, para isso, o indicador de todas as nações teria que ser revisado.
Analista de desenvolvimento do Pnud, Daniela Gomes Pinto explicou que o recálculo para os dados do Brasil, utilizando informações mais atuais, foi apenas um "exercício". Ela apontou o país como um indutor de ações para outras nações em desenvolvimento. "O Brasil é um exemplo de política para os pobres porque tem a compreensão da integração social", destacou. O relatório do Pnud não economizou elogios às conquistas brasileiras. Em gráficos, textos e quadros, ressaltou que, ao lado de China e Índia, o Brasil conseguiu reduzir a população em condição de pobreza. De acordo com o estudo, graças ao três países, todos bem populosos, as Nações Unidas atingiram três anos antes do previsto, que era 2015, o compromisso de reduzir pela metade a proporção de pobres verificada em 1990.
Entre os dados apresentados pelo Pnud, os relativos à educação são os que mais chamam a atenção. Embora o relatório aponte "ganhos expressivos" na área, o Brasil registra 7,2 anos de escolaridade da população adulta — mesma média do Zimbábue, país africano, que está na posição 172ª no ranking. Economista e ex-consultor do Pnud, Flávio Comim aponta o atraso no setor como um dos maiores desafios do país, ao mesmo tempo que ressalta a importância do estudo como forma de pressão. "O cidadão precisa perguntar ao governo porque só temos pouco mais de sete anos de escolaridade, porque só vivemos 73 anos, entre outros dados", destaca o especialista, que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade de Cambridge.
Dívida histórica Daniela, do Pnud, observa o deficit no setor, mas ressalta a evolução do Brasil desde que o IDH passou a ser calculado. "Em 1980, a população tinha menos de quatro anos de estudo, enquanto na Argentina a média era oito. Hoje, o Brasil tem 7,2 anos (de escolaridade). Foi o país que mais cresceu esse indicador entre os Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul). Mas a dívida histórica na educação penaliza o país e resulta em um indicador que não é tão robusto", destaca. Segundo ela, os investimentos só vão resultar em melhoria do IDH quando a população que está em fase escolar hoje for adulta. "Não se muda a escolaridade média de um ano para outro", diz Daniela.
Entre os países da América Latina, Chile, Argentina, Uruguai, Venezuela e Peru estão à frente do Brasil no ranking que mede o IDH. Classificadas na elite da lista, como "desenvolvimento humano muito alto", apenas Chile e Argentina. O Brasil ficou na categoria "desenvolvimento humano alto". Logo abaixo do país, entre os vizinhos, estão Equador (89ª posição) e Colômbia (81ª).
Falha na distribuição da riqueza
Ao ajustar o Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil à desigualdade social do país, o indicador cai significativamente, de 0,730 desce para 0,531. Com esse cálculo, o país perde 12 posições, fica em 97º lugar no ranking. A queda na nota é de 27,2%. Para o professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Marcelo Medeiros, o indicador mostra a dificuldade de um país rico em compartilhar os bons resultados da economia com a população. "O Brasil não está nas primeiras posições, como fica na comparação de Produto Interno Bruto (PIB), porque é muito desigual. É muito bom em produzir riqueza, mas ruim em distribuir a riqueza", argumenta. Segundo ele, é por essa diferença que países mais pobres saem na frente do Brasil na lista do IDH.
Apesar de não levar em consideração os resultados mais recentes das políticas de combate à miséria no cálculo do IDH, o relatório do estudo indica que o país tem se destacado nesse quesito. Medeiros acrescenta que a desigualdade no país começou a diminuir no fim da década de 1990 e até agora não parou. "A aceleração positiva foi nos anos 2000. A questão da próxima década será como retomar a queda da desigualdade em um ritmo alto. Isso vai ser mais importante que fazer a economia crescer."
O representante-residente do Pnud e coordenador do sistema ONU no Brasil, Jorge Chediek, ressaltou que o país tem evoluído na questão do acesso aos indicadores de saúde, educação e renda. "A tendência de redução da desigualdade é positiva. Nos últimos 20 anos, ela tem caído substancialmente no país." Entre os destaques, o relatório aponta os programas de transferência de renda, ao custo de menos de 1% do PIB, como os principais motivadores desse resultado.